sábado, 31 de janeiro de 2009

abertura ou in-tenção filosófica



não há literatura sem libertinagem, sem vida libertina, sem dissolução ao ódio cristão à vida, sem afirmação radical contra o horror q nega a vida tornando a vida apenas um horror [a positividade no horror é sempre uma depreciação, sempre um ver de baixo, restando cruamente da vida somente o negativo, o doente, o explorador, o carniceiro, jamais a vida inteira em suas dimensões trágicas]: sem ação, sem força, sem propósito, sem afirmação, sem luta, sem oposição y resistência, sem cri-ação libertina não há literatura: sem negar o horror, afirmando a vida q o horror deforma, formata, direciona, nacionaliza, não há literatura [nessa vida defumada, mumificada, resta apenas o horror: ele deixa de fazer parte constitutiva da vida: ele é vida excluída, isto é, apenas o negativo, o destrutivo, se apresenta como normalidade y a normalidade como vida]: sem a dança libertina, q é guerrilha, q é luta constante contra a Língua, o estado, o povo, a História, o lugar, as tradições, as religiões, as posições funcionárias, contra seu próprio lugar, não há literatura: língua libertina, língua dançarina, língua devires, linguainguas contra a Língua, fluxos contra o horror: linguaingua como um fora da comunicação, fora do equilíbrio: linguaingua: criação y destruição, foliar vivo contra imobilidades, acordos, sensos comuns, oligarquias, racionalizações, mercados, razões, leitores y críticos, contra as funções imobilizadoras da linguagem. literatura como outras respirações, outros corpos, outras imposições de sentido: literatura, antes de tudo, “deslocamento filosófico”: não há literatura sem esse des-locamento, sem esse per-curso [não filosofia enquanto “História das idéias”, “pedagogia” ou “disciplina” (o “amor ao conhecimento” q é tão somente sistema perverso de poder y confinamento: justificativa y adesão, condição de extermínios), certas racionalidades, a Razão, mas roteiro radical contra a ocidentalidade (a tribo: campos do existente, campos de extermínio, q se “identificam”, de “interpenetram”, se “permitem”, se “parecem”, crêem y vivem uma “história comum”: posições do confronto, redes negativas onde todas as perspectivas, todos os sentidos, todas as racionalidades têm suas raízes, justificativas y fins: mas sem limites precisos: não é “um” nem é “ser”: atmosferas, feixes, jorros vivos de domínio, forças contra forças: o “todo” q se atualiza no imediato): uma hermenêutica do “imediato”: fluxo existencial de saber, ação escritural autocons-ciente, projeto diferenciado y inversor: estratégias em busca da positividade q a negatividade instituída como “positividade” raptou, escondeu, dissimulou: positividade terrorista em trajeto: guerrilha, terrorismo, pirataria: o trágico contra a dialética].
no entanto a Literatura (diferente da literatura), normalmente, se funda como perspectiva remodelada da sua própria tradição, da escrita religiosa, dos modelos populares, do jornalismo, da historiografia, da sociologia y até da antropologia sob formas literárias esperadas: conta uma história (Literatura é praticamente um “contar história” q se esgota nesse contar, mesmo dizendo sempre o contrário) dentro dos horizontes formais (muda somente o autor): sua função é contar essa história [sua função é “fabuladora”: contar histórias pra dormir, pra fazer esquecer y fazer lembrar, pra passar o tempo, pra ensinar, pro poder, pra reforçar, pra fazer circular mercadorias, pra reforçar a hegemonia: descrever, falar do pedestal de funcionário público]. o pensamento enquanto positividade radical não é nem necessário nem possível na Literatura (negatividade ligada a hegemonia, a Língua, ao estado, a condição medusante da linguagem): não é necessário porq são estabelecimentos de formas q existem sem nenhuma radicalidade, nenhuma reflexão perigosa, nenhum pensamento a partir de outra perspectiva: nem é possível porq essa reflexão radical não faz parte da Língua, da tradição literária nem da formação do escritor enquanto escrivão da hegemonia (aquele q passa a “escritura falsa”, as palavras compro-metidas), um contador de histórias, loroteiro vaidoso y letrado da oligarquia das letras cuja função é reforçar o existente, amortecer o tempo, exaltar a Língua entorpecendo, incorporando y excluindo as linguainguas [enaltecimento da múmia-Língua: a Língua só pode se apresentar como múmia: múmia de “filme de terror”: múmia do y pro mercado], dar continuidade, fundir as fissuras, ordenar o desordenado.
pensar-o-existente não quer dizer, nem é, pensar-com-o-existente, mas, necessariamente, contra o existente: não com suas aparências, tropos, tipos, modelos, fôrmas, modas, entonações, ritmos, figuras, crenças, mas com uma positividade [faz parte do horror a negatividade radical q se apresenta como positividade: ciência, religião, filosofia, mídia, senso comum, Literatura, pedagogia] q escave além do razoável, além dos sistemas de crenças q fazem aparecer, sustentam y clonizam o existente, articulando elementos q construam do real seu horror encalacrado (o real, o imediato em seus desdobrares, é o horror).
pensar contra [“pensar à contrapelo”: inversamente, contra o pelo, contra a pele, contra a carne, até sangrar, expor o osso, o tutano, as forças postas em postas, expostas] faz se revelar não só as racionalidades, os pretensos fundamentos, os planos y os movimentos do horror, suas redes y nódulos tecidos com fios de medo [uma das principais forças da tribo, terrível força formatadora y mantenedora do horror], dormência y cumplicidade, mas o cotidiano y as tradicções como torções perversas: se submeter ao cotidiano ou a tradicção é o mesmo q ser devorado pelo horror y ver q “tudo isso é muito bom”, “isso é bom demais” [sem cumplicidade o horror ficaria em cheque: pagaria em dinheiro y mais uma vez tudo se resolveria].
enquanto o q tornou possível a Literatura foi o “capitalismo”, o “universo burguês” y seus imperialismos (limite lingüístico-teórico provisório), o q torna possível a literatura é a “pós-modernidade” [essa “modernidade” sem os “tradicionais” impedimentos: livre pra fluir y explorar: os “capitais” sem limites, sem eixos, sem entraves: um “capital líquido” y certo, realmente gasoso: a tribo no seu máximo de “extensão” y “profundidade”] como esse mesmo “capitalismo” [agora a realidade como um todo: se tudo é capitalismo, ideal “nazista”, só há o real enquanto horror] levado ao paroxismo (não precisa mais de crença alguma pra existir, se manter, se reproduzir y fluir): o fim das ridículas utopias de “salvação”, a expansão radical do capital, o consumismo y o consumista [assim como o “homem” foi criado depois mas com os restos do adão cristão, o consumista nasceu como uma descarnação do homem, inda com seus ossos, sangue y imbecilidades crentes, mas logo depois se tornou autônomo, separando ele-mesmo, seus desejos y fomes, das suas crenças da-boca-pra-fora: o homem inda acreditava: o consumista não precisa mais crer em nada, só desejar y poder consumir: é uma máquina imbecil de produção y consumo mergulhada numa lama hominídea querendo também se tornar consumista]: a impossibilidade y inutilidade das revoluções: o desaparecimento das crenças na história, na natureza, em deus y no homem, no estado y no futuro: a onipresença do horror, do sufocamento, da paralisia, do mercado: o horror deixou de ser momento, acontecimento, pra se tornar tudo em todo momento: a própria tribo enquanto inescapável, enquanto entorpecimento.
há relação íntima, carnal, entre o horror, a linguagem, a Língua, as religiões, a hegemonia, o estatal, o mediano, as manadas, o mercado, os poderes, a mídia, a gramática, a filosofia, a educação y a Literatura: sem esses planos co-penetrantes y abertos pro “sim”, pro “como-não”, pro “aceito”, pro “tou-honrado”, a Literatura não poderia representar o papel não apenas explícito, potente em formatar y manter a formatação das manadas y cardumes, mas o papel subliminar y formativo [faz parte da instauração de forças-de-repetição]: seu campo de atuação sendo na linguagem atinge diretamente o existente na medida da sua produção, reprodução, manutenção, elogio y reforço, onde até mesmo sua radicalidade, positividade y crítica tão comprometidas visceralmente com o “estabelecido” [até as negações mais radicais, q são positividades radicais, se tornam mercadoria num ambiente consumista: toda destruição é absorvida como moda, toda violência como experiência, toda humilhação como engrandecimento, toda diferença como mais um mesmo, q é sempre diferente porq não é o igual].
a literatura não é o já-escrito (não existe como realidade ou como já-feito: não é a “matéria” dos leitores y dos críticos), mas sim como per-curso dissolutor [aquilo q, incompleto por tanta falsa positividade, busca conhecimento através duma positividade radical (negando y invertendo o próprio conhecimento y a si mesma): na dobra, na torção, o específico conhecimento literário, q não é “conceitual” como querem alguns filosofos: jamais universal, jamais regional, jamais nacional ou bairrista] q procura a consciência contra a consciência, o mundo contra o mundo, se torna exposta y faz tornar exposta a radicalidade da sua positividade, da perspectiva, da específica maneira de lutar [a literatura é ação contra] y enfrentar o existente enquanto teatro do horror. mas não encontra nenhuma consciência reconhecível, y sim aquela q se faz ao sabor-saber literário: não é busca pelo já conhecido, mas por aquilo q nasce de reconfiguração, doutro arranjo. seus problemas, suas investigações, seus confrontos não são feitos com os materiais tradicionais da Literatura [talvez somente com seus despojos, lixos, materiais raptados pra resignificarem provisoriamente negativamente contra seu “contexto”: a literatura infesta todos os lixões da tradição, redirecionando, impondo outras vidas, deixando somente carcaças resignificadas: ossos expostos y invertidos, subvertidos de “contextos”, pervertidos, aberrantes, anomalias], da oligarquia das letras ou do lócus de inspeção [a Literatura brasileira y seu cânone: não poderia jamais existir uma “literatura brasileira”], mas do enfrentamento com a língua dos planos podres do horror.
a literatura tem em artaud, beckett, bernhard, brecht, broch, büchner, camus, canetti, celan, céline, conrad, döblin, dostoievski, ésquilo, genet, gogol, höderlin, homero, ionesco, jarry, joyce, kafka, kavafis, lautréamont, mallarmé, melville, musil, poe, proust, rabelais, rilke, rimbaud, sade, shakespeare, sófocles, sterne [nietzsche: schopenhauer, stirner, heidegger, sartre, benjamin, bachelard, blanchot, bakhtin, barthes, deleuze, foucault, derrida, baudrillard, bourdieu, balman, wittgenstein] não origens, muito menos os trilhos comuns onde foram postos, base teórica ou paideuma, mas horizontes de contradição [campos de posição/oposição: diálogos de negatividade, de repositividade: discordância, contraponto, superação, referência dialógica, lócus de confronto: instrumentos de luta, armas, munições: passar y levar o q enfrenta o horror, deixando pra trás o resíduo imprestável, ou tão mastigado y reutilizado q se torna irreconhecível] q alimentam as transversais da literatura enquanto enfrentamento do tempo com as linguainguas da positividade radical [não é o horror: não à vida em todas as suas formas: a “vida ocidental” sempre foi o mais profundo desprezo à vida: até mesmo ao demonstrar ser um “triunfo da vida” é somente mais um horror camuflado: o inextirpável câncer cristão q “é” a tribo y a “produção de capital” por si mesma como sua forma de existência].
literatura é o outro. é o encontro com outras vozes. com iguais, com diferentes. é expressão maior da individualidade em direção à singularidade, à unicidade: a resistência dessas individualidades até se tornarem singularidades [linguaingua: jamais regionalismos metidos a universalismos: destruição virótica da Língua]. manifestação plena de vozes y vidas, experiências y vivências integrais, principalmente num tempo progressivamente sociodemonazifascistacristão onde o horror é o cotidiano, os sentidos, as direções, as racionalidades, as relações, o profundo y o raso, o antes, o agora y o depois, o visível, o toque, o positivo, o negativo, o neutro [não é o todo, mas o q flui viscoso entre tudo, por entre tudo sem parar: o q jorra de repente, o q de repente surge da escuridão y leva um pedaço].
a literatura não é mimética, é escrita limpa, sem nomes, sem tecnologias, contra a Língua, contra as tradições, contra as tradicções, sem experimentalismo, a literatura é guerrilha contra o tempo: poética da positividade.
a Literatura, com sua tentativa burlesca de mímesis [pra melhor servir (porq sem sem o bobo-da-corte ela não descansa), essa vontade inescapável de todas as Artes], com sua torção localista y nacional, com sua curvatura ao sociodemonazifascismocristão, não produz uma linguaingua ou linguasinguas em luta senão como pastiche y reprodução de certo viés, repetindo a Língua estruturada pra significar de determinada maneira: a linguaingua na literatura, fragmento, monólogo dialógico y enfrentamento, cria sua linguaingua no fluxo do viver a partir das antigramáticas latejantes das “coisas” (as “gramáticas” q sobrevivem esmagadas pelo horror), das gentes, das tormentas da existência, da mais íntima singularidade destroçada [uma gramática positiva, agramatical y múltipla, contra as negatividades do existente, aparece pros gramáticos como anti-gramática, destruição da gramática, o q é verdade, mas na defesa da gramática “esquecem” de apontar suas funções negativas, degradantes da vida: a gramática precisa ser sólida, única, inflexível, tradicional, fraternal, regional, local, nacional, universal, porq se não for assim os pactos, os contratos, os comércios, as palavras de ordem, as interações protocolares, os clichês, as burocracias, os saberes da educação, do trabalho y dos governos, os fluxos cristalizados do capital são atingidos exatamente em sua inteligibilidade, em sua mais necessária racionalidade, lógica, praticidade, necessidade universal y natural, reconhecimento y poder: o leitor-consumidor é sempre satisfeito pelo horror: sem ser assim ele não “compreende”: sem a defesa-repetição do existente na medida do mesmo não há nem prazer nem entendimento]: sem o mundo enquanto ordem vivencial de resistência y sobrevivência (estar no horror), sem a articulação das experiências essenciais, soltas no viver y presas pelo “texto”, potencializando a singularidade contra a linguagem [contra a loucura do horror q é linguagem], ajustando a interioridade em seu fluxo dialógico com as formas móveis dessa interioridade, a literatura ficaria na clássica masturbação lingüística, sociológica, mercado y nação cristalizada em escrita (muro, horizonte, fonte, depósito) q é a Literatura.

o horror



i

*. o horror é a vida descarnada, a vida apenas em sua crua “negatividade” [a negatividade q passou pela moral, pelas culpas cristãs, pelas metafísicas], a vida moralizada, a vida tornada religiosa, periculosa, amarga, vida culpada q precisa ser redimida, a vida dos ressentidos [dos servosenhores impanturados de ócio improdutivo (a mentira ridícula dos nobres, das aristocracias), dos servos e trabalhadores impanturados de trabalho, dos servos dos servosenhores impanturados de “objetos” y “serviços” pro bem de todos, pro bem do estado, pro bem de deus, da alma, pro bem antes de tudo dos servosenhores], a vida dos reprodutores, dos campos do trabalho y do consumismo, vida das metafísicas y das ciências, das políticas, das manadas.
*. o horror é a ocidentalidade, o sumo das religiões, das metafísicas, das ideologias, das ciências, das cumplicidades, da “barbárie” tornada tribo, realidade: a normose.
*. o horror é “criminoso”, enquanto a vida é “inocente” (não precisa de justificativa, de justificação, de autoria, de assinatura): o horror é cristão, burguês, feudal (sociodemonazifascistacristão) - a vida ocidental foi construída culpada, culpando, foi sendo inventada como algo esmagado y esmagador: tornada pecadora, prostituta, injusta, desonesta, apenas o mal: precisando de um ridículo mito crucificado, pessimo personagem de dramalhão (e de uma instituição venal), pra assumir a culpa y ao mesmo tempo redimir essa culpa, tornando a vida limpa: injustiça q precisava ser punida numa acão divina (ou filosófica, ou científica: acões correlatas): sofre porq é culpado, y sofrendo expia as culpas y se redime: a vida cristã: o horror é a vida cristã, burguesa, capitalista: a busca por culpados, pelo mal, pelo sofrimento, pelas injustiças: metafísicas, o horror: só esmagando a vida se repete como criação do imediato: o tempo é só o tempo da tribo, o horror da tribo.
*. não há um “tempo modelo” antes (o tempo de ouro), sem o horror q se tome como exemplo, como origem: nem uma utopia, a sociedade-paraíso, q se lute pra se realizar, se unindo aquela origem com esse fim.
*. o horror é a vida vergada até se tornar um chicote.

ii

*. a literatura não é “contar uma história”, mas específica maneira de enfrentar não somente os horrores do passado [enquanto novelos temporais q se desdobram nas formas de experiência, crenças gerais, linguagens, práticas sociais y interindividuais, classificações, hierarquias, valores, desejos, im-posições, nas malhas do imaginário em fluxos de atualização, no jorro do imediato: literatura é enfrentar historicidades], mas nossos específicos horrores, expondo mais do q sua visível monstruosidade: daí porq o grotesco sem o alegórico (y vice-versa) é somente Literatura [sociologia jornalística ou jornalismo historiográfico: dimensões da mídia: não mais um contar “os excluídos” (mercado-ideologia: cumplicidades): ou as “vozes da elite” (tradição-ideologia ou produção-mídia): muito menos as “vozes da revolta” (utopia-ideologia por não ta no mercado, por se ressentir da sua “posição social”: os sonhos periculosos das manadas equivalentes a periculosidade dos servos dos servosenhores y dos próprios servosenhores: somente manutenções, conservações, reproduções, defesas, proteções do mesmo: formas do horror): tudo é mercado, tudo é mídia, tudo é mercadoria, tudo é cardume: da vida somente o horror: sem esse horror não há a tribo], y o alegórico sem o grotesco é somente “literatura fantástica” [teatro de sombras feito pro riso frouxo ou sonhos realistas da mídia]: o grotesco sem a alegoria é somente a aparência transformada em espetáculo único y principal [qualquer “gênero” da moda: alegoria impotente como algo “em sentido figurado”, ou aquilo q “representa uma coisa pra dar idéia de outra”: fantasmas de papel: a alegoria transformada em imagem, simulacro, mediador impotente].
*. “nosso” horror, além de carregar os grandes horrores do “passado” [mais-valias, explorações, tráficos, monopólios, abusos, violências, pressões, repressões, coações, entorpecimentos, constrangimentos, miséria, influências, sujeições, vassalagens, rendições, cooptações, desproteções, pobreza, selvagerias, torturas, agressões, violações, opressão, proibições, ressentimentos, humilhações, aviltamentos, racismos, homofobias, angústias, desesperos, machismos, solidões, servilismos, cumplicidades, normoses], agora com novas y atualizadas feições, tem q dar conta das teias imaginárias próprias do nosso horror pessoal y grupal [nada universal, generalizado, mundial, mas dessa tribo específica, “ocidental”, cristã, burguesa, capitalista: os infestados, devorados, canibalizados, incorporados pela “ocidentalidade” entram em “outra existência”], aquele horror q além de ta próximo, ta aos pedaços, aos quadradinhos, aos fragmentos, aos fluxos, aos pontos numa múltipla rede espácio-temporal enquanto “comunidade”, enquanto indivíduos despedaçados antes de conquistarem a singularidade [individualidade clónica, numérica, nominal, monstruosa y pervertida: bobo da corte, consumidor, modelo]: o horror se espalhou inda mais q o antigo horror (eixos “normais” y “naturais” da ocidentalidade: aquilo q reúne y difunde sua identidade): hoje é mais fácil ver ele somente enquanto mídia, aparições do mercado, permitidas pelo mercado, mas nunca articulado em seu horror vivencial: o horror é o q se esconde, o encapuzado, o disperso, o invisível de toda realidade: seu exercício monstruoso é a mais plena realização da “ocidentalidade”: não há o horror y a “ocidentalidade”: o horror é a ocidentalidade: sua “maneira de ser”, o resultado milenar de evisceração, arrancando da vida apenas o destrutivo, forças cruas em gélida repetição y autosatisfação, o poder de gerar cada vez mais o horror enquanto produtividade, o real enquanto horror.
*. o gozo do libertino é o mesmo da mítica parteira: trazer a luz, mas luz q é feixe negro de contradições [luz negra q afasta, q não aproxima, q não ilumina, q recusa a luz: faz aparecer novas formas, novos contornos y profundidades: busca a luz q multiplica, q cria claro-escuros, esfumatos, profundidades, longe da luz esfuziante da razão], o horror em seu momento [mas esses momentos do horror transformados em literatura dependem do seu lócus articulador: o libertino y seus feixes não podem ser excluídos: o libertino não é “escritor”, “filósofo” nem “cientista”, não carrega essas ingenuidades ideo-lógicas: seu lócus é o q articula fragmentos do horror: q fazem parte da sua responsabilidade, liberdade y experiências pessoais: literatura é vida forte, vida plena criando resistências contra o horror, repondo o horror nas cruas dimensões da vida] com o horror ou os horrores: a “verdade” ou a “realidade” não entram em seu universo: a literatura é inútil y perigosa pra “cidade”, pra “república”, pro “bem da humanidade”, pra Língua [a literatura, a linguaingua, é o exato oposto corporal da Língua: o gesto semântico instaurado entre macedo y marçal (a Literatura brasileira, o lócus de inspeção) é outro, é diferente, da afirmação negativa, hermenêutica q enfrenta o horror da literatura y não é mais produzida pelo escritor, pelo escritor-literato, pelo escritor-jornalista, pelo escritor-historiador, pelo escritor-cronista, mas pelo libertino]: esse é seu olhar, seu ponto, sua radical unicidade, resultando em individualidades do horror: é essa individualidade quem “unifica” o desarticulado-pra-ele, não a “verdade”: nessa articulação o libertino encontra o q sentia y inda não sabia completamente: a escrita reúne o disperso y se transforma numa experiência pessoal superada: numa consciência maior sobre o horror [essência da ocidentalidade, de cada um dessa tribo y essência de toda linguagem, de toda comunicação, de toda crença y idéia] y sua vida enquanto horror no horror. seu papel é ampliar feridas, fendas, infestações, aceitar y expor os monstros desses partos, evocando y provocando, reunindo y espalhando. em vez de acalmar as dores (seu papel não é o de fazer cesarianas), fazer ver a própria dor, as muitas dores q a ilusão, q o nada constitutivo produz, q o falso viver pelo falso viver esconde (o viver das elites, do povo, das massas, dos cardumes, dos consumidores, de todos os tipos de crentes): o sofrimento q articula o viver y q desaparece como justificativa. o libertino faz, com a literatura, o parto da descoberta de si mesmo como singularidade forte, apartada y da ocidentalidade em seu horror: interroga o horror em sua forma dispersa, pulverizada, triturada em múltiplas camadas y dimensões [sempre em movimento, sempre mudando de lugar: a literatura dá um lócus presse predador insaciável y território onde ele pode se desenvolver, se expor y se soltar: se multiplicar visivelmente: ele pode ser per-seguido], em transversais inumeráveis y imperceptíveis: a literatura torna visível, abstrai y fixa pontos, articulações, torções, planos soltos do horror, de modo a agrupar sob uma mesma forma/movimento uma multidão dispersa de vivências, experiências, inquietações: a literatura é o lugar, a jaula, onde foram y são aprisionados hologramas fragmentários do horror: como veio da dispersão não é representação, não ta no lugar de nada, não é signo, não é diretamente vivenciável (pré-sentido como unidade, visibilidade), mas enjaulamento de atmos-feras: violências.
*. o horror ta sempre trabalhando.
*. a literatura não liberta do horror, não libera em “descargas catárticas” [é preciso deixar de ta leitor: nada mais imbecil q um leitor: esse ser q se diverte lendo, q “faz o tempo passar”: essa criatura q “vive aventuras” y q “viaja ao redor do mundo” sentado ou deitado com seu livro: esse predador ocioso, glutão de dados, de inutilidades, de emoções: ser infantil y faminto, alheio y abismado: isso q não luta contra o horror, não usa os livros como instrumentos positivos, terroristas, pralguma resistência ou guerrilha aberta: cidadão integrado, letrado da oligarquia das letras, masturbador covarde q sonha seduções impossíveis: animal inofensivo da manada]: não supera no espelho como a Literatura, o teatro, o cinema, a Arte y as mídias: atravessando depois dela y com ela o horror seremos, enfim, nós mesmos y o horror será, finalmente, ele mesmo pra nós [literatura é algo íntimo q só a depravação faz tornar pública]: nenhum dos dois se esconderá mais: os dois terão seus corpos, seus órgãos, suas práticas, seus rituais, suas crenças ex-postas minuciosamente por seus fantasmas [esses mesmos q não cessam de nos mastigar, devorar, engolir, assimilar y expelir].

a literatura y o horror


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com o “declínio dos valores éticos y religiosos” [já não aparecendo mais como éticos, mas cruamente mercantis, jurídicos y estatais: não religiosos, mas cientificistas (ou científicos, o q dá no mesmo) com cobertura mística ou resistências ingênuas y impotentes], assim como a transformação dos “valores estéticos” em “valores industriais y comerciais” [por isso não-estéticos, mas consumíveis y expositivos: até a Arte desapareceu, por desvelamento y desdobramento, pra aparecer somente como “objeto artístico” (mesmo não querendo perder a posição de Arte): jamais voltará a ser o q disse ser, pensou ser, impôs ser: “objetos” do servosenhor: imaginários servosenhoriais]: antes de tudo valor-de-troca: todos os valores desvelados y superados pelo valor-de-troca: a ética, invenção de “sacerdotes” servindo servosenhores, se transformou em cruciante burocracia sem virtu, indivíduo sem comunidade, y as religiões, crenças entre crenças (o deus dinheiro de shakespeare y balzac como suporte y fim): ética y moral agora somente como o q sempre foram: adestramento das manadas, formatação pra obediência, códigos de manutenção.
com a reformulação radical da percepção, da cognição y do corpo [o corpo, q não era mais há muito tempo um “túmulo de lama”, não é mais domínio biológico, sendo esse somente uma das suas “formas históricas”]: não há mais “dois sexos”, cores estabelecidas por colonizações como estigmas do nascimento [desapareceram as raças, restando somente suas lutas políticas num vazio real, mas sobre suportes de sofrimento y discriminação q o sumiço das raças não extinguiu nem pode extinguir: não há o fundamento, ou melhor, o fundamento é imaginariamente doloroso, por isso real: y o real é racista, etnocêntrico, fundamentalista: o horror]: um só deus, um só corpo, um só olhar, um só desejo fluem entre mercadorias epiléticas q negam imobilidades por um lado y pregam, por outro, a unicidade imóvel: não há mais em cima ou em baixo (qualquer ponto ta em todos os lugares sem ta em lugar algum): a percepção se voltou pra sua “matrix”, a rede virtual produzida por seus fluxos: o real somos nós, nossa presença, nosso entrenós y seus fantasmas, suas dobras y torções, suas sombras y luzes, suas crenças, poderes y forças: não se percebe mais (percepção moderna) um existente pré-estabelecido, natural, universal, dado em-si, mas o existente enquanto produção viva das redes instáveis de produção/consumo, lócus virótico, relações de poder, ideologia, cotidiano, trabalho y desejo [delírios da tribo: delírios q são o real: o horror q não se “estabelece” mais: o horror moderno, o horror do capital não se estabelece mais em nada fixo, ou fixo por muito tempo, em lugar específico, nenhuma terra: o horror capitalista não se deixa capturar: enquanto o “horror medieval” era “estável”, “comunitário”, religioso, o horror do capital são processos constantes de volubilidade y dispersão: fluxos incessantes de horror líquido y vaporoso].
o belo [agora completamente produto y réplica platônica dum ideal industrial: o mundo das idéias deixando de ser em-cima pra ta por dentro do entrenós]: deixou de ser “belo” (sempre algo do servosenhor, feito pro servosenhor: coisa da casa do servosenhor) pra ser o mediano [o mediano, q desvelou o belo como algo sempre entregue a quem-pode, deixou de ta no meio pra preencher todos os vazios y esmagar todos os cheios]: y não há nada mais q o mediano (sem a mediania não há mundo, realidade, algo externo, sobra): q não é mais do-meio, do medíocre, mas do-todo: deixando furtivamente de ta associado ao bem [agora definitivamente o mal do servosenhor, a carnificina, o campo de concentração, o gulag: a política como administração reles de si mesma y proteção dos capitais: o judiciário, a polícia y o exército: a massa, o grotesco, o médio: a beligerância, o indiferente y o entorpecido: o bem desnudado, sendo visto como tendo sido sempre o bem-de-alguns, o bem-do-poder: nada nobre, tão somente coisas do servosenhor y as manadas em volta produzindo o existente como se fosse pra si mesmas, ficando com as aparas] y ao verdadeiro [agora indefinido, fanático, midiático ou científico: a verdade sendo verdadeira somente dentro do seu lócus (a verdade q não é consumível não é verdade), dentro daquele sistema q faz ela ser ao ser considerada y vivida como consumível: a verdade só é verdade com condições, sem contradições (mundo inda platônico: mundo do ser, da razão y das estabilidades, das cristalizações do imediato tomadas como instancias gerais, universais, parâmetros de realidade), o palatável, o tátil, o audível, o útil, o agora: a liberdade deixou de se apresentar como livre porq encontra seus limites objetivos imaginários: liberdade é ta provisoriamente nesse emprego provisório], assim como ao real [o mercado como único real (não é mais lugares ou transações, mas a própria virtualidade): o real enquanto o entrenós y suas crenças polidimensionais: todos os comércios]: sem horizonte de legitimidade qualquer verdade se torna imposição: aquele q diz ser sem posição ao acobertar sua posição: a verdade passou a ser o punho, o braço, os dedos retesados no anus aberto por garrafas de vinho: sexo escancarado, disponível, dentro somente do prazer da mercadoria, tudo de plástico, de gelatina, de luzes piscando até o esmagamento por bastões y pontapés ou nas velhices destroçadas nos edifícios imundos dos centos ou das periferias podres: não esquecer q o belo, o bem y o verdadeiro sempre foram ornatos do servosenhor, dos domínios do servosenhor [jamais “ideais nobres”, feitos por nobres, por uma aristocracia: essas balelas criadas pelos servos dos servosenhores pra enfeitar rapinagens, pra “enobrecer” os servosenhores]: feito, pensado, prescrito, ordenado, realizado pelos servos pros servosenhores: se o servosenhor se tornou a nação, o povo, a liberdade, a Língua, não esquecer q o servosenhor toma todas as formas, inclusive as positivas [nem o não-radical, nossa positividade, pode completamente escapar]: praticamente quase todos os filósofos y artistas, os q não enfrentaram o horror, compreendendo os cientistas como “operários” do capital, foram y são apenas produtores de “idéias” y “formas” pro servosenhor, pro deleite, pro gosto, pra defesa do servosenhor [são tipos específicos de servidores, de servos q podem se chamar de artistas, de pensadores, de professores, de intelectuais, de filósofos, de escritores, de mestres, de sacerdotes, mas são apenas as manifestações-capachos, seja das justificativas, da vida, dos poderes, dos gostos, das idéias ou das crenças pros servosenhores, materializadas de várias maneiras]: sem essa defesa-formatação não há o real: o real é essa defesa-formatação num processo repetitivo sem fim, circular y monstruoso: o horror.
o sublime, como aquilo q se eleva: q ta no alto: q é ilustre: nobre: distinto: q é “inexcedível perfeição material, moral ou intelectual”: aquilo q é “esteticamente belo”: o máximo: a perfeição: o q “se eleva no ar”: o sagrado q é “tremendum et fascinans” de rudolph otto y eliade, ou o “imensamente grande e imensamente intenso” de bakhtin, ou o medo y a surpresa de pascal diante da “eternidade que vem antes e depois”: o “sentimento de espécie mais refinada, assim qualificado quer porque se pode desfrutá-lo mais demoradamente sem saciedade y extenuação ... uma sensibilidade da alma” de kant: o sublime q sidera, esmaga, q apequena diante do monstro, do divino y do natural desaparece, se torna ridículo y tola hipostasia: esse mundo cristão, filosófico, o aristocrático do servosenhor foi, em dois séculos y centenas de guerras y genocídios depois (mais o holocausto como um dos grandes momentos reveladores), depois dos processos de massificação, consumismo y mídia, carbonizado, permanecendo somente como saudade de letrados cegos q nem de longe interpretam o papel de tirésias: com a dissolução irremediável de tudo q a “modernidade burguesa imperial” criou como universalidades naturalizadas, resta somente a luta sem trégua contra o horror [última resistência antes da possibilidade do sociodemonazifascismocristão invisível da ocidentalidade se tornar plenamente cotidiano y normalidade [a essência viva da ocidentalidade é normótica (purgando, dessa noção, as dimensões religiosas, místicas, científicas, filosóficas de manadas humanitárias y psicologias ginasianas de pierre weil), isto é, “o conjunto de normas, conceitos, valores, estereótipos, hábitos de pensar ou de agir aprovados por um consenso ou pela maioria de uma determinada população”, os costumes y tradições, levam necessariamente a sofrimentos, a discriminações, a enfermidades y a mortes, sendo, sempre, todas, “patogênicas” ou letais, y são executadas com a plena consciência dos “seus atores” (as manadas não precisam ser salvas, “educadas”, libertadas ou curadas de suas normoses por pedagogos, revolucionários, pastores, cristãos, socialistas, marxistas, democratas, anarquistas), mas a consciência dessa “natureza patológica” é reencaminhada pra própria normalidade, sendo defendida y vivida assim: historicamente todas as normalidades, são o “espírito da tribo”, a verdade, a realidade, o possível, o esperado, o prazeroso, o desejável, as crenças: a normose, todas as normoses, não é algo “patogênico” no sentido de doença estranha, circunstância, erro, exceção, mas a normalidade ocidental, a própria tribo, é patogênica [o ethos, o mos, ocidental é um pathos, é patológico, é patético, é doente y adoecedor], não por comparação com alguma outra “tribo” [q não existe, mas somente “extraterrestres” q chamamos indevidamente, por “comparatividade monetária”, por imperialismos, cristãmente, de “outros homens”, humanidade, humano, tribos], mas pela periculosidade “histórica”, existencial, incessante, intrínseca, constitutiva do seu pulsar cotidiano, das suas redes de crença, dos seus imaginários, das suas Línguas: ela não é, como quer o padreco weil, “inconsciente”, mas exige busca de prazer, “consenso”, “consciência”, “cumplicidades”, “resistências”, conforto, segurança, proveito, não reflexão (o medo cuida pra q ninguém saia do caminho, enquanto o prazer morno da proximidade da manada aumenta a segurança, a sensação de ta com os semelhantes num burburinho de placebo), y é letal sem ser exceção: se afastar das normoses é perigoso: seus devires são o horror: a normose é o horror]: positividades contra negatividades, contra as positividades impostas, querida y nos fluxos dominantes: tudo q tava em cima continua em cima, o q tava em baixo continua em baixo y tudo no ventre do monstro: o sublime se transferiu pro “empíreo”, pro “delírio”, pro silêncio ou pra atividade singular y alheia mirando estarrecida outro tempo: o sublime perdeu sua condição, seu solo tradicional, religioso, especial: sendo reconhecido como somente mais uma experiência daquele q se esconde ou daquilo q não consegue [talvez chegar ao horror, à diferença, ao radicalmente outro, a singularidade, ao único]: o sublime [expressão das artes y sentimentos dalgumas classes q se proclamavam universais] gorou irreversivelmente: agora é somente mais uma mercadoria ou experiência de consumo.
com a palavra deixando de significar enquanto experiência y revolta [uma mercadoria a mais: significante monstruoso: pairando sem significado: sem força: com a força do consumo]: enquanto parte constitutiva do entrenós, uma das suas matérias constitutivas: a incomunicabilidade se tornando o q antes só podia ser espaço do diálogo y do comercio vivo entre os indivíduos de determinadas classes [a falsidade se escondendo em forma de “conversa”: o “diálogo” sempre só foi possível entre os “iguais” (de mesmo poder) q podem ou na dormência dos q não podem: as intrincadas “conversas do dia-a-dia” não passam de “sinais de reconhecimento”, o equivalente ao “bicar entre as galinhas” y o “cheirar o rabo um dos outros” entre os cães]: podia ser o fluxo de conhecimentos y vivências (q se situava numa corrente específica de poder q restabelecia as tradições): agora é mais um dos pontos de ativação mercantil, de ativação dos “trabalhadores”, das crenças gerais y da acomodação paralisante: a palavra é cúmplice (não se tornou: “sempre” foi) quando faz sua parte da matéria viva do existente enquanto tempo: a palavra torna patente, com seu mutismo, q sua forma de existência é aceitação y tradução, engano y submissão, crença y silêncio, imposição y poder: o sentido é o momento da cumplicidade, da aceitação, o sentido chama a ordem, o encadeamento, o compartilhado passivamente [o mesmo, o de sempre, o esperado, o necessário, o preciso, o impreciso], as camuflagens da tribo gelatinosa, os acordos grupais, os gestos comuns do costume, o respeito imobilizante, quando o diálogo cessa y aquilo q o outro disse permanece: o sentido é subordinação y obediência: o servosenhor adormece y acorda, vive y descansa, cuida y se descuida dentro da inanição da palavra: casulo do servosenhor: mas não há um antes onde a palavra foi “forte”, foi instável y furiosa: sua forma de existência “sempre foi” apassivadora, comercial, contratual: não há uma “volta” q redima a palavra: sua tradicção é religiosa, coisa dos servos dos servosenhores: coisa de comerciantes.
os indivíduos só aparecendo como travestis do povo, da massa, da manada, do cardume, do vespeiro, do cupinzeiro, da gelatina [na literatura desaparece, ou se pulveriza, o personagem, q não pode mais ser a “antiga” máscara, a “antiga” personalidade, o “antigo” trajeto do herói, a antiga voz narrativa (q na Literatura brasileira é a máscara caricata do autor, q não consegue criar outra voz senão a dele mesmo ou as “máscaras jornalísticas” ou “familiares”): personagem legítimo agora somente na “Literatura de massas” como pastiche impotente, performático y típico, nas “Literaturas populares” como “sobrevivência” tanto por ignorância como por resistência passiva y festeira, ou na Literatura, como exercício tradicional (jornalístico, historiográfico, sociológico) da hegemonia: como fonte é manter o antigo, o tradicional, o integrado]: o indivíduo como clonização q não se sabe clone: o igual q propaga q é diferente: a busca pela possibilidade dos indivíduos, singularizados, se vincularem numa busca da liberdade sem esperar por ela na utopia do depois duma revolução, normalmente depois de purificações em campos de concentração, gulags, expurgos y cotidianos de medo y terror, cotidianos de trabalho incerto, de exclusão, de shopincenteres y mídias [o campo de concentração agora é o entorpecimento generalizado necessário pro sistema inteiro funcionar]: como fazer essa vivência da liberdade aqui y agora, fora dum futuro idealizado y fora de controle, se ordenar na literatura como rearticulação daquilo q aniquila a singularidade y uma das suas formas gerativas, o indivíduo: a busca pela positividade radical (aquela q nega o existente), pelo prazer sem controle, pelo prazer de negar o existente repositivando quer seja do indivíduo ou de grupos q voluntariamente se escolhem fora das “hierarquias de opressão y poder”, é uma possibilidade da liberdade fora do olho midiático, do outro monstruoso, do cardume: mas tudo no horror é compulsório y regular [regulamentado: a lógica do consumismo não é “líquida” nem “gasosa”: ela só parece ser, mas não é], é naturalizado y universalizado, é satisfatório y passageiro, é feito em massa y com permissão [um se abismar: um cair de propósito no turbilhão do abismo: sem a desculpa de “inconscientes”, de “desconhecimento”]: a literatura é um dos vírus soltos nas redes ou não é nada: não há literatura sem singularidades livres: sem q a individualidade se torne o “único”, a singularidade libertina, a literatura perde seu corpo.
com a intimidade coisa de todos: orgia midiática entre aqueles q nunca se viram, jamais se verão y não querem se ver [nem devem se ver: só há grande liberdade na “masturbação”: a festa, o encontro, a naite, a música, a bebida, o repiauer, a reive, a conversa repetitiva y de apoio ao conhecido (o “cheirar o rabo um dos outros”) são entidades do vespeiro de “classe média” (a normose enquanto falso dionisíaco) em ânsia de reproduções y repetições jamais plenamente satisfeitas]: o íntimo se impondo, ilogicamente, como exterioridade descarnada y escondida: entrecruzamento de imagens q perderam seu corpo y de corpos [corpo agora apenas performance biológica, corpo-sexo pra exposição, corpo-fisiologia pro mercado, corpo y alma cristãs pro sofrimento divididos entre as igrejas y os lugares da carne] q dissolveram sua imagem [sexo trabalhador, sexo classe média, sexo clone das mídias, sexo q se exaure no macho y fêmea, na bicha y no travesti, na lésbica y no transexual, nos minúsculos rituais cristalizados, na falta de repositivação y negação, de mutações conjuntas: sexo reprodutivo: sexo culpado: sexo protelado: sexo ansioso: sexo-vida calados]: bestialidade, pedofilia, fisting, coprofilia, sexo maquínico, sexo reprodutivo, sexo expositivo, sexo cansado y cansativo: sexo trabalhoso, sexo do trabalho, pro trabalho: esperança de sexo, menos q “amor” [a esperança “religiosa” da reprodução como uma das arestas mais bestiais do horror: horror q se apresenta como “amor”, como se pudesse haver amor fora da libertinagem: amor como crença de sintomas q escondem a reprodução, o desejo permitido, o pouquinho no horizonte da carninha]: esperança de roçar, de ver, de ser correspondido, de ser visto, de dizer quem é mesmo não sendo nada: sexo imposto [imposto de renda, conta bancária, emprego]: sexo dos padres, dos patrões, sexo da produção, subsexo das mídias, sexo sádico torcendo o prazer até a dor y a dor até o prazer q não se sabe mais, até a destruição do outro y de si mesmo [lócus de angústia]: olho supremo fora de si: longe: guardado: protegido: íntimo descobrindo, horrorizado, q sempre foi entrenós: vítima da própria cumplicidade assassina: incapaz de construir uma deformação, um descaminho, uma resistência radical ao em-torno: q não estacione numa simples negatividade ou numa forma q rapidamente seria capturada: corpo marcado pela manada pra se tornar apenas um tipo de “corpo” (produtivo, reprodutivo, midiático: a “casa própria”, o emprego, o carro, as férias, o fim de semana, o restaurante, o cinema, o shopingcenter, a televisão: o patético paraíso da normose).
com a igualdade y a liberdade [a igualdade entre os q compram y a liberdade de consumir sem parar são os fundamentos desses dois conceitos: poder fazer contratos, pactos y compras] revelando, antes de tudo, a vontade y o exercício do poder em suas “formas capilares de controle”, o imperium de certas individualidade camufla a comunidade em seu horror, todos os mimetismos tribais q apenas pros mesmos fazem ele aparecer. nessa “modernidade líquida” (como vê balman: como se houvesse alguma “modernidade sólida”), cada vez mais, os relacionamentos devem ser por livre escolha: mas não há mundo onde a liberdade y a igualdade substituam os poderes y se imponham nas próprias relações: a liberdade, a livre escolha (invenções dos servos dos servosenhores), se torna dramaticamente teatro da crueldade eroticamente violento y massacrado [a carne se abre, se eriça pra se reproduzir, pra produzir novos consumidores q serão cevados até a “gordura mórbida” pro abate primoroso numa repetibilidade estranha da “máquina fordista”]: a “liberdade” se ajoelha “diante do poder” y se humilha pra gozar, fazendo sempre seu normótico jogo quase erótico: tamos num momento da tribo inaugurado por sub don juans, sub sades, sansa (q já era sub) y ford (q era super-foda): fora dessa liberdade prostrada diante do poder y da repetibilidade tola y perversa, nada mais pode ser pensado [mas nada jamais pode ser pensado como “superação” porq toda “superação” faz parte da tribo, suas necessidades y possibilidades de perspectivas].
com o desaparecimento da Arte, sendo substituída ou superada por sua real forma de existência (objeto cultural): forma pra exposição y venda (sem a cumplicidade y sem a aura religiosa, aristocrática y burguesa tradicionais: arte sempre foi artesanato pro servosenhor y explicação pros babadores dos servos y manadas admirados): estrutura similar ao “objeto mercantil” [q perdeu seu momento religioso ficando somente como matéria artesã: matéria prima de artesãos de várias “classes” cada um trazendo a carne pra seu prato o quanto antes], terminou fazendo as vezes de “expressão da sensibilidade” [individualidade produtora de objetos pra específico mercado proclamando q é “pela Arte”, “pelo povo”, “pelo país”, “pela história”, “pela beleza”, “pelas idéias”: materiais, gêneros, performances, interfaces, tecnologias, repetições: aquilo q precisa dizer o q é, o q significa, “ao q veio”, o q representa, escondendo seu teatro: a lógica da identidade, a solidão do objeto nu, o pertencimento ao sistema dos “objetos industriais”: sua loucura y desespero por ter perdido o “patrão”, ou a busca desesperada por um patrão a todo custo: o dinheiro é o patrão, o servosenhor, a matriz necessária, inescapável]: seus sentidos tão fora, no sempre em fluxo do capital: significante despolitizado y policiado num circuito oficial y venal, ao mesmo tempo capaz de desvendar sua forma de existência anterior [q era praticamente a mesma coisa, mas com os véus da sacralidade: a Arte desde a primeira metade do século xx perdeu toda a sua especialidade, unicidade y força de dizer mais do q ela mesma enquanto “coisa-mercadoria”: sua forma de existência é a de “representação”: teatro do silêncio y do ridículo]: a Arte não consegue, nem jamais conseguiu, “enfrentar o horror” [a não ser fazendo parte “sem saber”: da igreja, do mecenas, do empresário, do estado, do mercado: sujeito integrado y objeto produzido também integrado]: seu horizonte é o das coisas [ritualizar as coisas, reapresentar as coisas, pôr as coisas no devido lugar, de produção, repor tudo no seu lugar devido parecendo ser revolução, revelação: não consegue esconder seus “interesses de classe” (blocos de gelatina, momentos de jorro), seu lócus viciado, sua parcialidade fragmentada por conivências]: como as coisas perderam seus véus, restou pra Arte ser somente coisa, mercadoria y estratégias específicas de convencimento de consumo (a defesa da Arte é, na verdade, estranha forma de venda, circulação y consumo: defesa de posição, de produção, de consumo: a tristíssima defesa do mesmo, novamente).
com o fim das utopias, transformadas objetivamente em todas as formas de genocídios, campos de concentração, totalitarismos, autoritarismos, perseguições y complementos imaginários, ideológicos, militares y burocráticos do capital, isto é, sem o futuro como meta, havendo se perdido o passado ao se descobrir q a história é uma escrita da História, um conhecimento integrado y integrador, uma experiência praticamente inútil pro presente, agora somente imediato mercantil y midiático com uma política voltada somente pra administrar y proteger o mundo do capital, um processo monstruoso de despolitização tomou conta de tudo [as “esquerdas” se tornaram, ou sempre foram, formas ridículas das “direitas”, agora “fósseis” substitutos da masturbação pras senilidades y adolescência de “classe média” impotente y sem horizontes]: o tempo ta reduzido a um simples agora do cotidiano, enquanto toda as suas dimensões y espessuras mergulham pruma espécie de inconsciente atuante mas impotente prum além das práticas y teorias naturalizadas, universalizadas y historicizadas (o devir mais vasto, o movimento, as contradições, as mutações modernas reduzidas ao mutacionar cru y livre das mercadorias): com o desaparecimento da mercantil “idéia de revolução” (substituída pelas noções de evolução-progresso ou por mudança-modificação), a política se tornou especialmente manifestação de apaziguamento [os políticos como tênias do estado, q é descomunal parasita imaginário da “comunidade” sugando objetivamente as bordas exaustas dos “frutos do trabalho” em “nome de todos”], y a idéia de revolução migrou inteiramente pra “renovação revolucionária” de mercadorias y serviços, de onde se originou [não a revolução dos astros, mas a revolução das mercadorias é o fundamento y o estranho convencimento da “idéia de revolução”].

ii

com tudo isso, y por tudo isso, y sem saudosismo [o “mundo do valor”, mundo religioso, servosenhorial y burguês, mundos do servosenhor, impondo sua natureza, sua universalidade, sua religião, sua história, era tão monstruoso quanto o desse momento: o “mundo do valor” sempre foi mundo pra poucos (não “escolhidos” ou “nobres”, mas somente força de impor sentido y cumplicidade dos fracos em aceitar essa força), aproveitadores y saudosos], mas como “análise” pro enfrentamento, a literatura deve deixar de atuar como sempre atuou a Literatura [suas velhas funções caducaram y persistem somente através duma oligarquia das letras, um cânone, uma hegemonia, um estado, um mercado y uma rede imaginária de “cúmplices” querendo exercer a nova vaidade permitida y exigida pela mídia, q era pecado cristão y agora virtude pra todos: a fama, o império do idiota], isto é, como representação da hegemonia (o horror): sua força reside em ser similar à virtualidade, às redes imaginárias q são o real enquanto criação, reprodução y circulação: escapa da individualização imóvel da Arte, do objeto y da função alienante do reprodutor de mercadorias como se fossem “coisas únicas”: quem faz a Arte é o indivíduo, quem cria a arte é a singularidade libertina y inversora.

iii

os “valores” destroçados, pulverizados pelo capital não podem servir de base pra literatura [uma “pré-modernidade”, uma “feudalidade”, uma “cristandade” ou uma “antiguidade”] a não ser como carne moída:
muito menos os “valores” do capital [a modernidade]:
assim como os “valores utópicos” gerados pelos dois primeiros.
a literatura enquanto libertinagem é a perda desses referenciais (tradição [passado], mercado [presente] y política [futuro]) impondo suas formas, sua expressividade, sua força y consciência na articulação negativa contra o existente: sem “valores” passados, presentes y futuros: “enfrentar o horror”.
a impotência do “trabalhador”: seu respeito cúmplice [sempre foi povo, massa, manada, servo dos servosenhores]: a incapacidade dos poderes y dos saberes em convencer y satisfazer [atributos da mercadoria] simbólica y materialmente [q é o mesmo q ta fora do mercado y do presente] suas vidas, q é a de praticamente todo mundo, é o presente horizonte, as possibilidades de forma, de ritmo, de articulação da literatura: a literatura é pôr em forma, enquanto enfrentamento repositivador, esse horror. mas essa forma não pode perder sua condição de enfrentamento em busca da positividade contra a consciência negativa do horror (ao tornar patente, ao transformar o disperso em alegoria grotesca, forma-narrativa), não da solução, q pertence às ilusões seja do passado [tradição-ideologia], seja do presente [mercado-ideologia], seja do futuro [utopia-ideologia]: é do horizonte de impotência, incomunicabilidade, ansiedade, medo, abandono, insegurança, misérias, desigualdades, exclusões, solidão, silenciamentos, normalidade, banalidade, cotidianidade y violência q se geram as formas provisórias, sempre em fluxo da literatura (forma épico-menipéia: a literatura como infestação dionisíaca): pura positividade terrorista ou resistente com causa, mas sem utopia: formas contra as formas do horror: nasce dele contra ele: não são formas negativas, mas positivas.

literatura


*. uma ação contra o entorno, contra o desagradável, o falso, o patético, o cruel, o cínico, o parasitário, o odioso do brasil y da ocidentalidade como um todo: a loucura, a amargura, a solidão q aguça a consciência, a lucidez contra o horror, expondo as vísceras cruas das normoses: narradores q não se calam diante do silêncio imposto como “contexto”, do silenciamento enquanto texto: os silenciamentos provocados tanto pelo horror quanto pelo próprio “contar história”: a linguaingua contra a palavra, a palavra silenciada, a palavra integrada, muda diante da es-finge da Literatura, das muralhas esnobes da Língua, sempre dos servosenhores guardados pelos servos de todos os tipos: a “Língua portuguesa”, a “Literatura de Língua portuguesa”, coisas infelizes q tudo falseiam como canalhas q não se contêm nas calças y q não é capaz de dizer a verdade ou enfrentar os servosenhores y seu mundo.
*. a palavra tomando o caminho da Literatura [a palavra do mercado, da hegemonia, da tradição y da mímesis: palavra q não se desdobra, não flui, não se multiplica nem nega: mantida imóvel y na repetição: palavras da comunicação entre os crentes da manada: feitas pra concordância, pra informação, pro reconhecimento, pro passatempo, pra cantoria, pra palavra de ordem y pro cantochão] perde o caminho de se tornar desestabilizadora, sua possibilidade de instabilidade, de pôr em crise, em limites os planos imaginários do real: seu poder de inquirir o horror [a palavra não representa nada: ela se cola nas formas, nos modelos, nas forças da ordem y no envoltório das mercadorias: as palavras são capachos y parasitas].
*. a literatura, ao não se conformar, ao não ser verdadeira ou real por não ser mimética, interfere na consciência (do horror). enquanto a Literatura se entrega ao horror, ao mundo da identidade [princípio, meio y fim, ordem, reconhecimento, imitação, reprodução] y do aparecer estável (antigo mundo religioso y dos poderes medusantes), a literatura precede o horror, por dentro, ao articular o desarticulado, ao criar o seu disperso nos pontos da sua atuação monstruosa: a literatura corporifica o incorporal do horror em seus momentos separados, intocáveis, incompreensíveis, impunes, incompreensíveis [prende os estilos, os picos do horror numa malha inesperada q ex-põe numa desconsideração da palavra q esconde, vela, participa].
*. a literatura ex-põe as linguainguas, os corpos, os poderes, as relações de crenças do horror na medida mesma da dispersão do horror, aquela q apresenta como ordem, história, cotidiano, trabalho, família, natureza: a normalidade (um dos corpos perversos do horror).
*. a literatura re-apresenta [refaz o teatro do horror sabendo q é teatro, fazendo ver q é teatro] os fragmentos do horror “fisgados” das redes hipertextuais do horror, retirando o “esquecimento” q nos faz não-ver, no fragmento, o conjunto monstruoso, a harmonia dolorosa.
*. só a literatura pode “dar conta” [fazer aparecer, não dissolver ou destruir] do horror em todas as suas dimensões por sua capacidade em dramatizar em linguagem os dramas da linguagem q é o horror da linguagem q se esconde y se dispersa nas gramáticas, nas lógicas, nos conceitos, nos conhecimentos, nas tecnologias y nas memórias.
*. uma das forças da literatura é não-crer y atingir a crença no horror como a própria efetividade: seu limite é o caos: sem ta cega com o q se formata com ele: a linguagem é o horror.
*. a literatura, ao não ser a palavra mimética [o “mundo” como aquilo q deve ser combatido, não representado], deve reconhecer a impossibilidade de se definir: sua função guerrilheira impede parar pra se integrar: impasse do pensamento em busca do pensar: literatura q pensa contra leva à in-conclusão: mas seu caminho é sem saída, inexpugnável: os impasses, os paradoxos da doxa tornada princípio, olho y solução: ao seu solo y sua meta não poderem ser determinados, é articulação arbitrária (pedaços do horror), toda mímesis afunda, suas palavras não concordam com nada, sequer com fragmentos de si mesma: suas contradicções não se resolvem, não aceitam mediações, finalizações, superações, não aceitam o prazer, o entorpecimento, a informação do leitor: y os sentidos jorram sempre diferentes, sempre sem polaridades (mesmo q se tente impor centros y periferias), sem terreno, sem q os sentidos se satisfaçam: escapando sempre da leitura, q é aquilo q quer se reproduzir, se espelhar, afundar em sua própria imagem: as “portas da significação” tão sempre fechadas demais ou abertas demais: nada respira ali dentro, ou de tão aberto não há nada: literatura é um além, um antes, um entre as linguagens: seu lócus é a pele: entre o caos y o futuro.

a literatura não é mimética



*. a literatura não é mimética, não gera crenças ingênuas (mas perigosas) q existe um real q ela copia, imita, representa, recria, simula, ecoa [a literatura ao não ser reprodução, modelo, plágio dum real, o real enquanto casca imaginária, não pode ser “avaliada” segundo esse critério]: a literatura cria radicalmente seu real (enfrentamento): a relação entre o “real literário” y um pretenso real [q é sempre cristalizações discursivas: o “real mesmo”, além de não existir, é impressão y proposição do imediato do presente, o ta vivendo q some ao ser vivido, q “pensa” poder ser traduzido y transposto “em palavras”: no fundo o respeito religioso pela “palavra escrita”, q vem das manadas y dos servos dos servosenhores, deve ser verdadeira: deve representar: o escritor como bobo da corte q re-apresenta representando a “verdade”, o “real”, q pra ele é Linguagem, retraduzido em escrita: duplo fantasma periculoso]: q o “real literário”, ou qualquer escrita, pode ser réplica, reviver, reprodução q pode ser avaliada em sua vero-semelhança: como se o viver fosse palavras, y as palavras o viver: a relação é sempre “literária”, “discursiva” (mediada por um letrado y seu fabular compro-metido: função dos servos dos servosenhores): entre palavras: presunção de tradução: lógica da identidade: a lógica da oligarquia das letras.
*. o poeta platônico, tratado como imitador [por isso julgado y expulso da república, além de poder trazer uma instabilidade perigosa pro ser y pra tirania socrático-platônico], é impossibilidade: criação dum sistema q acredita q as “sombras”, o real, duma maneira ou de outra, são reais y imitáveis: q outro mundo ideal y de idéias também pode ser reproduzido (pelos filósofos), ficando parte como erro y a outra como verdade. sem coincidência com o verdadeiro, a mímesis é sempre inferior, incompleta y deformante: ponto cego (o ponto da Arte y da Literatura: todo escritor, toda a Literatura, é platônico).
*. a Literatura seria um duplo inválido: a modernidade aceitou esse duplo em sua pretensa positividade (?científica), mas inda assim duplo: a Literatura brasileira (o lócus de inspeção) é duplo subalterno da hegemonia (os servos dos servosenhores y suas “instalações”): cópia do “ideal europeu” y do imaginário específico das “elites letradas” (os servos): realista, naturalista, jornalística, historiográfica, sociológica y memorialística: a Literatura brasileira luta pra ser mimética (Língua imitando linguagem: onomatopéias das manadas, dos cardumes), pra representar, pra reapresentar um real q é, na verdade, simulacro não só do “conjunto da sociedade” imbecil, submissa y castrada, mas projeção ideológica da hegemonia tornada o real [mesmo saindo do seu imóvel “momento atual”, cria um tempo sempre linear, obediente, em-cadeado].
*. o horror (a virtualidade, a hegemonia, o imediato, o tempo, a normose) não é o “real” [aquele q é apresentado “textualmente” como se fosse o imediato do presente: o “horror” da mídia], mas fragmentos pulverizados do real enquanto dimensões da “totalidade” dentro das redes polidimensionais imaginárias, vivenciais, simbólicas, oralizantes, “literárias”, q são o tempo apenas em seus desdobrares [contextos: seu lócus hipertextual é o entrenós, não ta no “fato”, na “história”]: a literatura é um dos enfrentamentos, não a imitação, a representação, a cópia, a “memória”, a expressão literária [historiográficas, sociológicas, jornalísticas: ficções esquecidas q são escritas: q reproduzem apenas mais escritas q não se sabem] de exterioridades: literatura não é dramalhão suburbano, folhetim de classe média, diário de letrado, con-fabulação masturbatória.
*. literatura não é mímesis: mas a Literatura faz questão de ser mímesis. de acreditar como jornalistas (q são “testemunhas da história”), historiadores (q “contam o q aconteceu”), memorialistas (q crêem piamente q “isso aconteceu comigo”), q sua escrita não é escolha, torção necessária pra comunicabilidade tanto de grupos quanto da própria manada “como um todo”: como sociólogos, antropólogos, economistas q apresentam, sem saber, sua escritura como se fosse o real, aquele q é pastiche do imediato do presente: marca platônica y aristotélica, q atravessa a ocidentalidade inteira (sendo aceita “inconscientemente” pela ciência) se põe a julgar o “literário” y o “artístico” pelo “real” (se bem q é julgado antes pelas redes integradas do q deve ser, do como deve ser), sendo aqueles a cópia y este a verdade [pros cristãos de guarda, se a verdade y a realidade não forem, duma maneira ou de outra, platônica-aristotélica, científica y filosófica, lógica, estatal y gregária, protegendo o q deve y não deve ser diferente, há uma “comoção de placas”, terremotos, tempestades, angústias, repressões, dores, incômodos, ilegibilidades y, no limite, cadeia, tortura y morte, no mínimo esquecimento, silenciamento].
*. o grande corpo-campo do horror não é visivelmente explícito (não se apresenta na visibilidade das normoses): seu aparecer se dá primeiro, em bloco, como a própria efetividade (o real) y, depois, fragmentariamente em “situações” normalmente não percebidas (nem em blocos nem em momentos) como sendo o horror por ser escondido por crenças y justificações [enquanto a individualidade reintegra o horror em justificativas filosóficas, religiosas, políticas, midiáticas, a singularidade ex-põe y enfrenta ele em seu não-ser monstruoso]: por se apresentar como “normalidade”: mesmo q doa muito, humilhe mais q o suficiente, torture mais q o necessário, esteja entranhado nas “práticas sociais” y nas suas justificativas, no trabalho, no cotidiano, nas festas y nos rituais, nas técnicas y nas tecnologias, nas mercadorias y nas “relações humanas”: a literatura costura esses pontos soltos, mas atuantes como constitutivos y necessários pra hegemonia, num feixe articulado, mas não verossímil: no entanto nada mais vero q esse estranho símile do horror, não do real: o horror do holocausto, por exemplo, não aparece nas fotos, nos relatos, na historiografia, na sociologia, na Literatura q duma maneira ou de outra imita o “vivido”, mas em obras onde aqueles “horrores” se articulam em sua especificidade sem se perder no “ali”, no “nunca mais”, no “historicamente datado”, no localismo ou no “sociologicamente compreensível” (o horror não pode ser compreendido nem aceito, principalmente como é, nas normalidades brutais do cotidiano): o horror, os horrores do holocausto foram ditos em várias obras “anteriores”, em textos q nada tinham a ver com o holocausto, ou em obras q diretamente nada dizem do específico, mas do horror disperso, sua legítima forma, y enfrentam ele em sua fluidez monstruosa q não foi dum lugar, dum tempo, nem produzido por “um povo” nem sofrido somente por “outro povo”, mas constituição essencial não apenas da modernidade, mas da ocidentalidade: o holocausto é o eixo nu y os extremos tanto da modernidade (sólida, líquida ou gasosa) quanto da própria ocidentalidade: é sempre uma de suas possibilidades, uma das suas saídas y, disperso, sua assombrosa normalidade: o eixo vivo da ocidentalidade é (y todos os eixos interligados a ele) homicida, genocida, necrófilo-necrofago, canibal, esquizóide, virótico (imperialista), paranóico, homofóbico, cristão, pedófilo, machista, racista, xenófobo, perverso numa síntese gregária consolidada pela má-fé.

horizontes


*. escrita livre de lugares conhecidos, definidos, geográficos, regionais, urbanos, nacionais ou “universais”: não é lugar visível [esse passa mais rápido q a vida duma mosca: dizer esse lugar q passa é, na verdade, se eximir de dizer ele profundamente, radicalmente (q é um deixar raízes), de analisar ele de maneira realmente contundente y eficaz, de agarrar ele pelo pescoço: visivelmente em seu largo aparecer, no movimento das suas ondas “visíveis” y “invisíveis”: dizer o imediato é afundar no tempo, ficar preso na lama do passado], mas o lócus do horror, q ta espalhado em todos as dimensões y tempos do lócus: as histórias tradicionais y seus lugares contam somente o específico q se desgasta em localismo, em reconhecimento, em tentativa de solução, em denúncia ou literatice [a Literatura é o “jornalismo” dos lugares y a “memória” de “tipos”] sempre se dizendo “universal”, isto é, uma das formas ridículas de localismo camuflado, de regionalismo envergonhado y de nacionalismos medrosos [quase todos os universalismos são europeus, ocidentais, cristãos, burgueses, capitalistas]:
*. sem nomes aceitáveis, normais, tradicionais ou imitados: o nome é deformação a ser desmascarada, armadilha a ser desmontada, artifício hegemônico q faz parecer q tudo ta normal, q faz parte por ser próximo, q começa na pia batismal, no cartório (jamais no crematório), nos costumes caseiros, na morte: ser contra o nome é uma das guerrilhas da literatura: nome é um papel, costume, sistema, transmissão, poder, posição, cânone, oligarquia, Língua, nação [aquilo q nasce pelo poder y se reproduz pelo poder y pelas crenças imbecis y perigosas duma manada re-produtora: o q ajuda a “caracterizar um povo”, um “corpo”, um “eu”, um “organismo”]: a literatura é espécie de compreensão disso tudo enquanto intervenção: ou o nome é ironia (forma pra atingir o patético do horror) ou se caiu numa naturalização do nome, q é o mesmo q entrar num circuito sem fim de naturalizações y crenças não superadas [o nome do “autor” também faz parte dessa luta: além das inescapáveis relações jurídicas, o nome do “autor” não deve significar a partir de fora, impondo sua existência viciada: mais um nome dum letrado da oligarquia (o nome dos servosenhores: servosenhores de engenho, servosenhores das fazendas, servosenhores das mulheres, servosenhores do estado, servos dos servosenhores das letras y da Língua): o nome do “autor” não pode reduzir (com sua língua, nacionalidade, sexo, história, raça, idéias, política) a multiplicidade, o jorro-devir incessante da literatura: por isso ele significa tanto na Literatura: q esse nome seja engolido pelo texto y se torne “figura literária”: o “autor” ao se tornar a “origem” do texto (“origem” q marca, ferra, o texto sempre com um con-texto limitante, esquecido q é sistemas entretecidos de texto: texto domado pelo institucional, pelas crenças onde o texto se “origina”: tem nome, tem “tradição literária” na oligarquia das letras), pobre y ridículo deus de teatro, transforma o texto em “documento”, em “expressão dum tempo”, em “marco definitivo”: assim o horror escapa sempre ileso, deixando o texto afundado numa temporalidade fetiche, num espaço, numa palavra: escritura falsa q, normalmente, busca fora o q não ta nem dentro nem fora: carne pro abate]:
*. sem tecnologias específicas, mas genéricas, secundárias ou inexistentes: a moda tecnológica, como qualquer moda, não é enfrentamento do tempo (literatura), mas afundar no imediato, no típico, no conhecido: na Literatura (lócus de inspeção) a tecnologia deixa de ser enfrentada em suas funções coisificantes, nadificadoras y animalizantes [de indivíduos y singularidades], pra ser deslocada pro “fundo”, fazendo o papel de cenário ou de “objetos da cena” [estão como “marca”, moda, grife: coisas inocentes, joviais, inescapáveis, necessárias pra “fazer parte”, compor]: tão ali pra dar credibilidade (a escravidão, o escravo em machadinho), não pra ser desvendada sua produção, sua interferência y seu comercio entrenós [ou se torna “conceito”, “idéia”, “opinião”, o q faz o texto se transformar em parte dos mecanismos discursivos da própria tecnologia: a interdependência entre eles é apagada]:
*. contra a Língua: coisa genérica, Língua do servosenhor [sempre posse dos servos dos servosenhores, os “letrados”: oligarquia das letras: a “fina flor” q cuida diuturnamente do bem-estar da Língua y da nação], q desde o “escravismo colonial”, y “antes”, na “península ibérica” (as bestas portuguesas y espanholas), eram serviçais da corte, da religião, dos ricos y do estado, campo de gramáticas, palavras de ordem, políticas y orto-grafias: a literatura se instaura como y só enquanto constituição de linguainguas, profundamente singulares (o “meu” horror, esse horror, isso), particulares, íntimas, intransferíveis: somente assim o horror coletivo, o horror da massa, das manadas y do formigueiro, se entrega, se dissolve, se coagula, se deixa ver, se deixa sentir: a linguaingua não é “portuguesa” nem “brasileira” [muito menos qualquer dessas outras “línguas estrangeiras” q se fazem passar por “melhores”, “tradicionais”, “cultas” (“filosóficas” ou “literárias”) ou “práticas” (como a infantil, ridícula, caipira y atual “língua dominante”)]: isso seria aceitar um quadro externo q me diria, código q devo seguir, ciência q devo obedecer [!pra isso seria preciso q o mundo, a natureza, a história, deus y o homem existissem: q lógicas, gramáticas, sintaxes, religiões, mitologias, ciências significassem além das suas estreitas legitimidades de crença y poder: o festeiro conhecimento dos idiotas]: a linguaingua, q nasce da literatura [não ta no mundo, não é folclore, não é regional, não é encontrável pra dá entrevista, pra fazer parte do circo das mídias], q nasce do mais profundo de mim y de mim no y contra o mundo (enfrentar o horror), q é a própria literatura, não é o q parece: só podemos dizer q é “portuguesa” ou “brasileira” porq aceitamos apenas sua “igualdade”, sua “similaridade”, sua “proximidade”, sua “comparatividade”, sua “legibilidade” de formigueiro pro formigueiro, y deixamos de ver, por uma espécie de má-fé mais q doentia, sua estranha diferença, sua mais radical singularidade, seu desvio perigoso, sua articulação negativa, sua instabilidade, sua condição estrangeira, migrante, antinatural, guerrilheira, transversal, vinda do corpo pro corpo: deixamos de ver sua situação terrorista simplesmente pra trazer ela pra “dentro de casa” (domesticar a linguaingua é transformar ela em Língua): o familiar como aquilo q não me desespera, não me desestabiliza, se organiza, se reproduz, compartilha, me mantêm na sombra, no caseiro, no doméstico: a crítica literária (coisa somente pra Literatura) faz esse papel de tornar familiar o q não é [uma das suas funções é adestrar, tornar palatável, torcer a literatura até ela aparecer-parecer como Literatura: ver o q foi feito com kafka, com büchner, com beckett: ao mesmo tempo como tornam um literato ridículo, capacho y chocho como machadinho, típico oligarca funcionário público y agregado, covarde y camaleão, no eixo duma Língua, excelência dum cânone, princípio y centro do lócus de inspeção], comparar o incomparável: o q não é dessa terra y de nenhuma, desse corpo ou desse tempo: pôr numa ordem o q nasce pra desordem, o q é disperso y somente com malabarismos se mantém “sistema”: canonizar, explicar ou esquecer é não querer reconhecer a diferença terrorista ou essa possibilidade [não esquecer q a Língua é “obrigação do dizer”, estrutura exigindo, ditando, forçando a falar daquela maneira y não de outra: a Língua é um se sujeitar, linhas coercitivas, fascistas (“fascismo” como “proibições do dizer” y do “cristianismo” de confessionário como “imposição do dizer”: dimensões estruturais): o respeito à autoridade do comum, do gregário y da repetição: pra ser compreendido, pra ser aceito a Língua dobra o falante, o escritor ao seu poder: não há como fazer, como ser diferente: a literatura enquanto enfrentamento do horror deve levar em conta isso y sistematicamente fazer avançar as “margens” confundindo o “centro”: apesar de tudo, só há liberdade enquanto linguaingua como um verme vírus dentro da Língua: a linguaingua como aquilo q com fome devora desde dentro a Língua (devora o horror): por isso mentir, trapacear, perturbar, roer por dentro a confiança nos p-actos (semânticos, gramaticais, ficcionais, estatais, pedagógicos, científicos, filosóficos, religiosos, morais, naturais, sexuais, corporais, raciais, nacionais, regionais) q reforçam a Língua como foi construída y como é mantida: a Língua é muito mais q gramática, fonética, sintaxe:
*. sem caracterização socioeconômica, histórico-psicológica, política ou cotidiana: o horror não é “performático”: apesar de também ser os “textos” o q compõem os contextos, quando se performatiza em personagens, cenários, histórias, é menos q patético (pathos), é somente ridícula ingenuidade, o q é voltar y reforçar o horror artisticamente. o contexto, normalmente, é apenas um imaginário se impondo como única realidade, como real, um ta-aí, um ao redor existente pra todos y ponto final: como se todos os textos não fossem textos, mas houvessem se desgarrado, transtornados real, ou melhor, o real, domado em suas “várias camadas”, houvesse se traduzido, y cada vez mais y melhor num vasto “progresso do espírito”, em textos q representam mesmo o devir em seus devires. a literatura não parte desse “saber iluminista”, racional, sociodemonazifascistacristão, dessa razão q, duma maneira ou doutra, sai sempre incólume do seu trajeto, seja entre sereias, circes, polifemos, seja em mosteiros, igrejas, monastérios, seja protegido pelos “aliados” pra ensinar ciência y tortura pelo mundo: sempre triunfante impondo o mesmo: não cabe à literatura salvar ou dramatizar a razão, mas destroçar ela como cristalização imaginária do horror q transforma todos em “porcos desde sua gênese” (ciência y circe). todos os cenários, todos os panos de fundo, todos os arredores da Literatura, y da História, são imaginários esquecidos q são imaginários [q grande descoberta], textos esquecidos q são textos: os personagens só podem agir coerentes com esses imaginários alienados. somente quando a literatura força, desde muito dentro, forçou a Literatura a um plus, é q apareceu a cisão entre esse imaginário doente, amnésico, com as forças da linguaingua, forças de viver no horror com plenitude: o resto é fabulação, “novela das oito”, folhetim. literatura é esse plus sem as “ilusões de realidade” necessárias pra Literatura y todas as Artes:
*. contra tradições / contra tradicções: o horror é a tradição [q é sempre tradicção: vista nos seus extremos patéticos na leitura de poemas y “textos literários” por secundaristas y atores/atrizes] porq ela jamais foi enfrentamento do horror: ela é o horror canonizado: pode y deve ser infestada somente naquilo q pode ser transformado em literatura, em positividade, em inversão: além de infestada a tradição deve ser sodomizada: ela tem pavor de qualquer forma diferente do desejo, da “natureza”, da lei, do q ela gosta mas nega: a tradição sodomizada [sodomia em cadáver: necrofilia: é preciso mais: coprofilia: sem ser coprofílico não se consegue entrar em contato com a tradição], bem sodomizada, perde o juízo, o controle, grita feito porca no cio, cadela entre cães [y degustamos esses gritos violentados: com esses ganidos articulados podemos ter uma visão do horror]: a tradição deve ser sodomizada profundamente [também sugamos seus espasmos de carne fria, carne morta, carne podre y ossos expostos]: essa é a primeira coisa q devemos fazer com a tradição: depois podemos começar realmente sua refundição completa, reescritura: pois a tradição deve ser posta fora da sua temporalidade, dos seus eixos pra significar pra literatura: ela deve ser desdobrada: posta na temporalidade da literatura: retirada do passado y do passado-pra-nós y exposta enquanto imediato do presente, desdobrada num y prum enfrentamento literário: o passado só significa enquanto desdobramento no imediato: horror enfrentado em sua pulverização ou cristalização hegemônicas:
*. sem experimentalismo, ou melhor, experimentalismo a serviço da positividade do enfrentamento (sempre o inverso da positividade das manadas) y da ironia [ironicamente o experimentalismo nunca é genuíno: pra ser experimentalismo é preciso q o produtor y o consumidor acreditem piamente nisso, q isso realmente tem valor: o valor da literatura não é experimental: é valor fundante: a vida, enquanto o valor da Literatura é degradação subserviente, valor per-vertido da-nação pro formigueiro]: o experimentalismo, a novidade, o “moderno”, o “atual”, são apresentações da mercadoria (representação “inconsciente”, q pode ser chamada também de má-fé): como-ela é triturada, produzida, circulada y consumida:
*. a publicação da literatura (resistência, guerrilha, terrorismo, infestação) difere da publicação da Literatura (continuidade da tradição, estilo, vaidade, representação): enquanto uma é negatividade, empreendimento da consciência contra o horror, não tendo o “leitor” (consumidor) em nenhum momento, importância alguma: sua ação se faz no tempo, longe do consumidor, mas com fragmentos negativos q irão tomar corpo contra a hegemonia: a outra é mercadoria [faz parte, é gênero, é sexo, é cor, é posição, é nome, é oligarquia], ou, no máximo, “documento/monumento”: exige ser mercadoria, exige y proclama o consumo y o consumidor: se entrega [sem dizer q se entrega] y exige se integrar [sem dizer q deseja se integrar, q seu projeto é integração], vender, se vender [negando piamente q se vende, q se fez pra “negociar”, pra intermediar, formatar pro formigueiro]: fazer parte da mídia, da história, da cidade, do estado, do país, da Língua.
quem faz uma é o libertino (aquele q liberta, o liberto): quem faz a outra é o escritor (o escrivão da hegemonia, membro da oligarquia das letras):
*. a história, a estrutura narrativa, o sistema-tema, o encadeado, é efeito secundário da articulação em feixes dos horrores do horror: os elementos soltos no tempo, no espaço y na vivência, quando se articulam em outra consciência, criam um espelho-isca q é a “história”: essa miragem mira y faz mirar a virtualidade: esse é o meu olho, essa é minha face, eis minha vida:
*. literatura é guerrilha contra o tempo: poéticas da negatividade.

situ-ações



há uma pergunta recorrente q é usada praticamente em todas as situações: “?donde você é” esse “é” diria, ao ser aceito y respondido, posto em lugar y tempo, quem é o sujeito, o q pensa, o q faz, porq y como pensa y faz, porq fala assim dessa maneira, y age y sonha y escreve y planeja y trabalha y se relaciona assim se é idêntico, parente, estranho, próximo, distante. não é pergunta, mas enquadramento, reconhecimento, fundação, jaula: respondido, é como se o outro se dispusesse, se desnudasse. respondido o “é”, podemos compreender plenamente esse sujeito, esse q se apresenta, isso q fala. esse “é” é pergunta divina: com ele o sujeito, ou a coisa, se torna transparente, dado, acabado, localizado: não deixa dúvida, não há margem, não há perigo ou se sabe qual perigo.
esse “é” é mágico porq é o zoológico perfeito (ele põe no setor correto, na jaula certa, na placa definidora, na alimentação requerida, com os companheiros corretos, com os comportamentos de praxe, com os inapeláveis grunidos da sua espécie): esse zoológico é panóptico q permite q todos vejam quem você é, como você é, como deve se comportar, como deve desejar: esse lócus me diz mais do qeu mesmo: me torno esse lócus:
a taxonomia ideal [na legítima espécie, no verdadeiro gênero, na requerida ordem, na inescapável família, no correto reino q me cabe “junto aos meus”: sem mutações, sem vazios, sem indecisões, sem não-enquadramento, sem não-aceitações, sem revoluções radicais, sem não, sem resistências]: só posso ser isso: aquilo q nega em mim tudo isso não pode se desvelar: não faz parte, não ressoa, não é explicável: essa mutação raivosa y negativa q sou (se camufla dos outros só pra resistir, lutar, dissolver melhor), não-é, não pode refletir, não pode ser: é deixado ser somente o esperado da ordem: sou essa ordem mesmo q seja precisamente contra essa ordem q é o meu agora: só posso ser contra essa ordem q imponho: não posso não-ser sendo contra tudo: minha negatividade é porta também y somente como contra-ordem:
o senso absoluto [aqui me ponho, aqui me imponho, aqui ta minha diferença y a razão da minha diferença]: fora daqui não há diálogo, não há referencias, não há favor, não há reconhecimento, não há linguagem ou diálogo: solidão é o mínimo:
na história verdadeira [isso me diz, esse processo me caracteriza, essa origem me satisfaz, essa tribo sou eu, esses irmãos me completam: somos iguais]: sem esses trajetos dum lugar q seria “meu” y “eu”, sem os iguais a “mim” nesses trajetos, não sou deixado ser: sou apenas nessa história, com essa história, com determinado lugar y gente [se digo q não sou igual isso não é levado em consideração, é como se fosse uma brincadeira]:
na geografia adequada [sou desse lugar y esse lugar com essa gente y seus costumes sou eu: fragmento disto: sou esse lugar mesmo longe dali: o lugar é marca, cicatriz, estigma: sou ferrado pelo lugar: o nascimento é a razão]: sem minha alcatéia, sem meu formigueiro, sem minha manada, sem meu cardume, sem meu território, me desloco sem significar: mas não nasci em nenhum lugar a não ser em mim mesmo quando escolhi negar, repositivar, inverter, perverter, não ser, não pertencer, não com-partilhar:
na raça esperada [esta cor sou eu, a história dessa cor sou eu, as relações dessa cor sou eu: fora desta cor sou estranho, um outro: essa cor me determina porq ela é natural ou, pelo menos, assim deve ser ou parecer: o q não é natural é desvio: o estranho é desvio]: devo ser “branco”, devo crer q sou “branco”, devo ver y escutar como “branco”, devo relevar o “branco” contra as outras cores: sou somente “branco”: é assim q me vêem sem se perguntarem porq vêem assim: é assim q sou y sou porq devo ser, porq acredito q sou y acreditam os outros q sou: fora dessa crença, nem sou nem posso ser: sou o q dizem q sou: “branco”: mesmo negando radicalmente, é impossível ser outra coisa ou coisa alguma, isto é, sem cor ou todas as cores:
no sexo visível [aquilo q visto, o tom da minha voz, pra onde y pra quem olho, quais histórias y piadas conto, como uso o gênero na linguagem, como exerço parte do meu desejo, com quem me relaciono é índice do meu sexo]: meu sexo é estabelecido por uma sistema de crenças, forças, poderes, imposições, classificações q fazem também meu corpo y minhas relações, jamais por feixe singular, multidimensional de desejos, de sonhos, de imaginações, de perspectivas, de vivências: fora do corpo esperado sou um desviado, anomalia, doença, disfunção, libertinagem, derrota:
na Língua apropriada [a maneira como falo ou escrevo diz meu lugar: me põe numa classe, num estamento, numa casta, numa região, numa família, numa favela, numa estribaria, numa universidade, entre miseráveis ou entre ricos, entre sábios ou ignorantes, entre migrantes ou cidadãos, entre os q podem ou entre os q não podem, entre os q são y os q não são]: essa Língua dos outros não é minha: minha linguaingua é a q significa pra mim, é íntima, é pessoal, é desvio, são transversais: essa linguaingua q sou não é a mesma Língua ou a mesma linguaingua dos outros: cada palavra, cada inflexão, cada frase, cada idéia dessa minha linguaingua me pertence, jamais a uma Gramática, a um Povo, a uma História: essa linguaingua q sou foi construída por mim, veio do corpo, desses corpos q fui y sou em seus trajetos im-positivos: os outros compreendem ela y compreendo as outras Línguas y outras linguainguas por comparação, por extrapolação, por cansaço, por tradução, por engano, por escravidão: minha linguaingua não é de ninguém nem de nenhum lugar: não é uma “variante”, um “sotaque”, uma brincadeira lingüística.
?q é o corpo, os outros, a História, a Geografia, a Gramática, a Política, a Biologia, a Sociologia, a Economia, o Direito, a Ciência, a Religião, a Mídia senão formas de sub-meter [meter muito mal: só os idiotas apreciam]. de não deixar subverter, inverter, multiplicar, mutacionar, repositivar violentamente: ?q é a explicação senão enclausuramento y negação da vida y da singularidade, em guerrilha.
se não sou branco: se não sou homem: se não sou brasileiro: se não falo y escrevo em português: se não sou duma região, duma cidade, dum emprego, dum contrato: ?quem sou eu. mas só sou quando não sou nada disso y radicalmente me ponho contra mim mesmo, contra o mundo, em resistência: y tudo isso como um vírus dentro dum imenso corpo podre.