não há literatura sem libertinagem, sem vida libertina, sem dissolução ao ódio cristão à vida, sem afirmação radical contra o horror q nega a vida tornando a vida apenas um horror [a positividade no horror é sempre uma depreciação, sempre um ver de baixo, restando cruamente da vida somente o negativo, o doente, o explorador, o carniceiro, jamais a vida inteira em suas dimensões trágicas]: sem ação, sem força, sem propósito, sem afirmação, sem luta, sem oposição y resistência, sem cri-ação libertina não há literatura: sem negar o horror, afirmando a vida q o horror deforma, formata, direciona, nacionaliza, não há literatura [nessa vida defumada, mumificada, resta apenas o horror: ele deixa de fazer parte constitutiva da vida: ele é vida excluída, isto é, apenas o negativo, o destrutivo, se apresenta como normalidade y a normalidade como vida]: sem a dança libertina, q é guerrilha, q é luta constante contra a Língua, o estado, o povo, a História, o lugar, as tradições, as religiões, as posições funcionárias, contra seu próprio lugar, não há literatura: língua libertina, língua dançarina, língua devires, linguainguas contra a Língua, fluxos contra o horror: linguaingua como um fora da comunicação, fora do equilíbrio: linguaingua: criação y destruição, foliar vivo contra imobilidades, acordos, sensos comuns, oligarquias, racionalizações, mercados, razões, leitores y críticos, contra as funções imobilizadoras da linguagem. literatura como outras respirações, outros corpos, outras imposições de sentido: literatura, antes de tudo, “deslocamento filosófico”: não há literatura sem esse des-locamento, sem esse per-curso [não filosofia enquanto “História das idéias”, “pedagogia” ou “disciplina” (o “amor ao conhecimento” q é tão somente sistema perverso de poder y confinamento: justificativa y adesão, condição de extermínios), certas racionalidades, a Razão, mas roteiro radical contra a ocidentalidade (a tribo: campos do existente, campos de extermínio, q se “identificam”, de “interpenetram”, se “permitem”, se “parecem”, crêem y vivem uma “história comum”: posições do confronto, redes negativas onde todas as perspectivas, todos os sentidos, todas as racionalidades têm suas raízes, justificativas y fins: mas sem limites precisos: não é “um” nem é “ser”: atmosferas, feixes, jorros vivos de domínio, forças contra forças: o “todo” q se atualiza no imediato): uma hermenêutica do “imediato”: fluxo existencial de saber, ação escritural autocons-ciente, projeto diferenciado y inversor: estratégias em busca da positividade q a negatividade instituída como “positividade” raptou, escondeu, dissimulou: positividade terrorista em trajeto: guerrilha, terrorismo, pirataria: o trágico contra a dialética].
no entanto a Literatura (diferente da literatura), normalmente, se funda como perspectiva remodelada da sua própria tradição, da escrita religiosa, dos modelos populares, do jornalismo, da historiografia, da sociologia y até da antropologia sob formas literárias esperadas: conta uma história (Literatura é praticamente um “contar história” q se esgota nesse contar, mesmo dizendo sempre o contrário) dentro dos horizontes formais (muda somente o autor): sua função é contar essa história [sua função é “fabuladora”: contar histórias pra dormir, pra fazer esquecer y fazer lembrar, pra passar o tempo, pra ensinar, pro poder, pra reforçar, pra fazer circular mercadorias, pra reforçar a hegemonia: descrever, falar do pedestal de funcionário público]. o pensamento enquanto positividade radical não é nem necessário nem possível na Literatura (negatividade ligada a hegemonia, a Língua, ao estado, a condição medusante da linguagem): não é necessário porq são estabelecimentos de formas q existem sem nenhuma radicalidade, nenhuma reflexão perigosa, nenhum pensamento a partir de outra perspectiva: nem é possível porq essa reflexão radical não faz parte da Língua, da tradição literária nem da formação do escritor enquanto escrivão da hegemonia (aquele q passa a “escritura falsa”, as palavras compro-metidas), um contador de histórias, loroteiro vaidoso y letrado da oligarquia das letras cuja função é reforçar o existente, amortecer o tempo, exaltar a Língua entorpecendo, incorporando y excluindo as linguainguas [enaltecimento da múmia-Língua: a Língua só pode se apresentar como múmia: múmia de “filme de terror”: múmia do y pro mercado], dar continuidade, fundir as fissuras, ordenar o desordenado.
pensar-o-existente não quer dizer, nem é, pensar-com-o-existente, mas, necessariamente, contra o existente: não com suas aparências, tropos, tipos, modelos, fôrmas, modas, entonações, ritmos, figuras, crenças, mas com uma positividade [faz parte do horror a negatividade radical q se apresenta como positividade: ciência, religião, filosofia, mídia, senso comum, Literatura, pedagogia] q escave além do razoável, além dos sistemas de crenças q fazem aparecer, sustentam y clonizam o existente, articulando elementos q construam do real seu horror encalacrado (o real, o imediato em seus desdobrares, é o horror).
pensar contra [“pensar à contrapelo”: inversamente, contra o pelo, contra a pele, contra a carne, até sangrar, expor o osso, o tutano, as forças postas em postas, expostas] faz se revelar não só as racionalidades, os pretensos fundamentos, os planos y os movimentos do horror, suas redes y nódulos tecidos com fios de medo [uma das principais forças da tribo, terrível força formatadora y mantenedora do horror], dormência y cumplicidade, mas o cotidiano y as tradicções como torções perversas: se submeter ao cotidiano ou a tradicção é o mesmo q ser devorado pelo horror y ver q “tudo isso é muito bom”, “isso é bom demais” [sem cumplicidade o horror ficaria em cheque: pagaria em dinheiro y mais uma vez tudo se resolveria].
enquanto o q tornou possível a Literatura foi o “capitalismo”, o “universo burguês” y seus imperialismos (limite lingüístico-teórico provisório), o q torna possível a literatura é a “pós-modernidade” [essa “modernidade” sem os “tradicionais” impedimentos: livre pra fluir y explorar: os “capitais” sem limites, sem eixos, sem entraves: um “capital líquido” y certo, realmente gasoso: a tribo no seu máximo de “extensão” y “profundidade”] como esse mesmo “capitalismo” [agora a realidade como um todo: se tudo é capitalismo, ideal “nazista”, só há o real enquanto horror] levado ao paroxismo (não precisa mais de crença alguma pra existir, se manter, se reproduzir y fluir): o fim das ridículas utopias de “salvação”, a expansão radical do capital, o consumismo y o consumista [assim como o “homem” foi criado depois mas com os restos do adão cristão, o consumista nasceu como uma descarnação do homem, inda com seus ossos, sangue y imbecilidades crentes, mas logo depois se tornou autônomo, separando ele-mesmo, seus desejos y fomes, das suas crenças da-boca-pra-fora: o homem inda acreditava: o consumista não precisa mais crer em nada, só desejar y poder consumir: é uma máquina imbecil de produção y consumo mergulhada numa lama hominídea querendo também se tornar consumista]: a impossibilidade y inutilidade das revoluções: o desaparecimento das crenças na história, na natureza, em deus y no homem, no estado y no futuro: a onipresença do horror, do sufocamento, da paralisia, do mercado: o horror deixou de ser momento, acontecimento, pra se tornar tudo em todo momento: a própria tribo enquanto inescapável, enquanto entorpecimento.
há relação íntima, carnal, entre o horror, a linguagem, a Língua, as religiões, a hegemonia, o estatal, o mediano, as manadas, o mercado, os poderes, a mídia, a gramática, a filosofia, a educação y a Literatura: sem esses planos co-penetrantes y abertos pro “sim”, pro “como-não”, pro “aceito”, pro “tou-honrado”, a Literatura não poderia representar o papel não apenas explícito, potente em formatar y manter a formatação das manadas y cardumes, mas o papel subliminar y formativo [faz parte da instauração de forças-de-repetição]: seu campo de atuação sendo na linguagem atinge diretamente o existente na medida da sua produção, reprodução, manutenção, elogio y reforço, onde até mesmo sua radicalidade, positividade y crítica tão comprometidas visceralmente com o “estabelecido” [até as negações mais radicais, q são positividades radicais, se tornam mercadoria num ambiente consumista: toda destruição é absorvida como moda, toda violência como experiência, toda humilhação como engrandecimento, toda diferença como mais um mesmo, q é sempre diferente porq não é o igual].
a literatura não é o já-escrito (não existe como realidade ou como já-feito: não é a “matéria” dos leitores y dos críticos), mas sim como per-curso dissolutor [aquilo q, incompleto por tanta falsa positividade, busca conhecimento através duma positividade radical (negando y invertendo o próprio conhecimento y a si mesma): na dobra, na torção, o específico conhecimento literário, q não é “conceitual” como querem alguns filosofos: jamais universal, jamais regional, jamais nacional ou bairrista] q procura a consciência contra a consciência, o mundo contra o mundo, se torna exposta y faz tornar exposta a radicalidade da sua positividade, da perspectiva, da específica maneira de lutar [a literatura é ação contra] y enfrentar o existente enquanto teatro do horror. mas não encontra nenhuma consciência reconhecível, y sim aquela q se faz ao sabor-saber literário: não é busca pelo já conhecido, mas por aquilo q nasce de reconfiguração, doutro arranjo. seus problemas, suas investigações, seus confrontos não são feitos com os materiais tradicionais da Literatura [talvez somente com seus despojos, lixos, materiais raptados pra resignificarem provisoriamente negativamente contra seu “contexto”: a literatura infesta todos os lixões da tradição, redirecionando, impondo outras vidas, deixando somente carcaças resignificadas: ossos expostos y invertidos, subvertidos de “contextos”, pervertidos, aberrantes, anomalias], da oligarquia das letras ou do lócus de inspeção [a Literatura brasileira y seu cânone: não poderia jamais existir uma “literatura brasileira”], mas do enfrentamento com a língua dos planos podres do horror.
a literatura tem em artaud, beckett, bernhard, brecht, broch, büchner, camus, canetti, celan, céline, conrad, döblin, dostoievski, ésquilo, genet, gogol, höderlin, homero, ionesco, jarry, joyce, kafka, kavafis, lautréamont, mallarmé, melville, musil, poe, proust, rabelais, rilke, rimbaud, sade, shakespeare, sófocles, sterne [nietzsche: schopenhauer, stirner, heidegger, sartre, benjamin, bachelard, blanchot, bakhtin, barthes, deleuze, foucault, derrida, baudrillard, bourdieu, balman, wittgenstein] não origens, muito menos os trilhos comuns onde foram postos, base teórica ou paideuma, mas horizontes de contradição [campos de posição/oposição: diálogos de negatividade, de repositividade: discordância, contraponto, superação, referência dialógica, lócus de confronto: instrumentos de luta, armas, munições: passar y levar o q enfrenta o horror, deixando pra trás o resíduo imprestável, ou tão mastigado y reutilizado q se torna irreconhecível] q alimentam as transversais da literatura enquanto enfrentamento do tempo com as linguainguas da positividade radical [não é o horror: não à vida em todas as suas formas: a “vida ocidental” sempre foi o mais profundo desprezo à vida: até mesmo ao demonstrar ser um “triunfo da vida” é somente mais um horror camuflado: o inextirpável câncer cristão q “é” a tribo y a “produção de capital” por si mesma como sua forma de existência].
literatura é o outro. é o encontro com outras vozes. com iguais, com diferentes. é expressão maior da individualidade em direção à singularidade, à unicidade: a resistência dessas individualidades até se tornarem singularidades [linguaingua: jamais regionalismos metidos a universalismos: destruição virótica da Língua]. manifestação plena de vozes y vidas, experiências y vivências integrais, principalmente num tempo progressivamente sociodemonazifascistacristão onde o horror é o cotidiano, os sentidos, as direções, as racionalidades, as relações, o profundo y o raso, o antes, o agora y o depois, o visível, o toque, o positivo, o negativo, o neutro [não é o todo, mas o q flui viscoso entre tudo, por entre tudo sem parar: o q jorra de repente, o q de repente surge da escuridão y leva um pedaço].
a literatura não é mimética, é escrita limpa, sem nomes, sem tecnologias, contra a Língua, contra as tradições, contra as tradicções, sem experimentalismo, a literatura é guerrilha contra o tempo: poética da positividade.
a Literatura, com sua tentativa burlesca de mímesis [pra melhor servir (porq sem sem o bobo-da-corte ela não descansa), essa vontade inescapável de todas as Artes], com sua torção localista y nacional, com sua curvatura ao sociodemonazifascismocristão, não produz uma linguaingua ou linguasinguas em luta senão como pastiche y reprodução de certo viés, repetindo a Língua estruturada pra significar de determinada maneira: a linguaingua na literatura, fragmento, monólogo dialógico y enfrentamento, cria sua linguaingua no fluxo do viver a partir das antigramáticas latejantes das “coisas” (as “gramáticas” q sobrevivem esmagadas pelo horror), das gentes, das tormentas da existência, da mais íntima singularidade destroçada [uma gramática positiva, agramatical y múltipla, contra as negatividades do existente, aparece pros gramáticos como anti-gramática, destruição da gramática, o q é verdade, mas na defesa da gramática “esquecem” de apontar suas funções negativas, degradantes da vida: a gramática precisa ser sólida, única, inflexível, tradicional, fraternal, regional, local, nacional, universal, porq se não for assim os pactos, os contratos, os comércios, as palavras de ordem, as interações protocolares, os clichês, as burocracias, os saberes da educação, do trabalho y dos governos, os fluxos cristalizados do capital são atingidos exatamente em sua inteligibilidade, em sua mais necessária racionalidade, lógica, praticidade, necessidade universal y natural, reconhecimento y poder: o leitor-consumidor é sempre satisfeito pelo horror: sem ser assim ele não “compreende”: sem a defesa-repetição do existente na medida do mesmo não há nem prazer nem entendimento]: sem o mundo enquanto ordem vivencial de resistência y sobrevivência (estar no horror), sem a articulação das experiências essenciais, soltas no viver y presas pelo “texto”, potencializando a singularidade contra a linguagem [contra a loucura do horror q é linguagem], ajustando a interioridade em seu fluxo dialógico com as formas móveis dessa interioridade, a literatura ficaria na clássica masturbação lingüística, sociológica, mercado y nação cristalizada em escrita (muro, horizonte, fonte, depósito) q é a Literatura.