*. escrita livre de lugares conhecidos, definidos, geográficos, regionais, urbanos, nacionais ou “universais”: não é lugar visível [esse passa mais rápido q a vida duma mosca: dizer esse lugar q passa é, na verdade, se eximir de dizer ele profundamente, radicalmente (q é um deixar raízes), de analisar ele de maneira realmente contundente y eficaz, de agarrar ele pelo pescoço: visivelmente em seu largo aparecer, no movimento das suas ondas “visíveis” y “invisíveis”: dizer o imediato é afundar no tempo, ficar preso na lama do passado], mas o lócus do horror, q ta espalhado em todos as dimensões y tempos do lócus: as histórias tradicionais y seus lugares contam somente o específico q se desgasta em localismo, em reconhecimento, em tentativa de solução, em denúncia ou literatice [a Literatura é o “jornalismo” dos lugares y a “memória” de “tipos”] sempre se dizendo “universal”, isto é, uma das formas ridículas de localismo camuflado, de regionalismo envergonhado y de nacionalismos medrosos [quase todos os universalismos são europeus, ocidentais, cristãos, burgueses, capitalistas]:
*. sem nomes aceitáveis, normais, tradicionais ou imitados: o nome é deformação a ser desmascarada, armadilha a ser desmontada, artifício hegemônico q faz parecer q tudo ta normal, q faz parte por ser próximo, q começa na pia batismal, no cartório (jamais no crematório), nos costumes caseiros, na morte: ser contra o nome é uma das guerrilhas da literatura: nome é um papel, costume, sistema, transmissão, poder, posição, cânone, oligarquia, Língua, nação [aquilo q nasce pelo poder y se reproduz pelo poder y pelas crenças imbecis y perigosas duma manada re-produtora: o q ajuda a “caracterizar um povo”, um “corpo”, um “eu”, um “organismo”]: a literatura é espécie de compreensão disso tudo enquanto intervenção: ou o nome é ironia (forma pra atingir o patético do horror) ou se caiu numa naturalização do nome, q é o mesmo q entrar num circuito sem fim de naturalizações y crenças não superadas [o nome do “autor” também faz parte dessa luta: além das inescapáveis relações jurídicas, o nome do “autor” não deve significar a partir de fora, impondo sua existência viciada: mais um nome dum letrado da oligarquia (o nome dos servosenhores: servosenhores de engenho, servosenhores das fazendas, servosenhores das mulheres, servosenhores do estado, servos dos servosenhores das letras y da Língua): o nome do “autor” não pode reduzir (com sua língua, nacionalidade, sexo, história, raça, idéias, política) a multiplicidade, o jorro-devir incessante da literatura: por isso ele significa tanto na Literatura: q esse nome seja engolido pelo texto y se torne “figura literária”: o “autor” ao se tornar a “origem” do texto (“origem” q marca, ferra, o texto sempre com um con-texto limitante, esquecido q é sistemas entretecidos de texto: texto domado pelo institucional, pelas crenças onde o texto se “origina”: tem nome, tem “tradição literária” na oligarquia das letras), pobre y ridículo deus de teatro, transforma o texto em “documento”, em “expressão dum tempo”, em “marco definitivo”: assim o horror escapa sempre ileso, deixando o texto afundado numa temporalidade fetiche, num espaço, numa palavra: escritura falsa q, normalmente, busca fora o q não ta nem dentro nem fora: carne pro abate]:
*. sem tecnologias específicas, mas genéricas, secundárias ou inexistentes: a moda tecnológica, como qualquer moda, não é enfrentamento do tempo (literatura), mas afundar no imediato, no típico, no conhecido: na Literatura (lócus de inspeção) a tecnologia deixa de ser enfrentada em suas funções coisificantes, nadificadoras y animalizantes [de indivíduos y singularidades], pra ser deslocada pro “fundo”, fazendo o papel de cenário ou de “objetos da cena” [estão como “marca”, moda, grife: coisas inocentes, joviais, inescapáveis, necessárias pra “fazer parte”, compor]: tão ali pra dar credibilidade (a escravidão, o escravo em machadinho), não pra ser desvendada sua produção, sua interferência y seu comercio entrenós [ou se torna “conceito”, “idéia”, “opinião”, o q faz o texto se transformar em parte dos mecanismos discursivos da própria tecnologia: a interdependência entre eles é apagada]:
*. contra a Língua: coisa genérica, Língua do servosenhor [sempre posse dos servos dos servosenhores, os “letrados”: oligarquia das letras: a “fina flor” q cuida diuturnamente do bem-estar da Língua y da nação], q desde o “escravismo colonial”, y “antes”, na “península ibérica” (as bestas portuguesas y espanholas), eram serviçais da corte, da religião, dos ricos y do estado, campo de gramáticas, palavras de ordem, políticas y orto-grafias: a literatura se instaura como y só enquanto constituição de linguainguas, profundamente singulares (o “meu” horror, esse horror, isso), particulares, íntimas, intransferíveis: somente assim o horror coletivo, o horror da massa, das manadas y do formigueiro, se entrega, se dissolve, se coagula, se deixa ver, se deixa sentir: a linguaingua não é “portuguesa” nem “brasileira” [muito menos qualquer dessas outras “línguas estrangeiras” q se fazem passar por “melhores”, “tradicionais”, “cultas” (“filosóficas” ou “literárias”) ou “práticas” (como a infantil, ridícula, caipira y atual “língua dominante”)]: isso seria aceitar um quadro externo q me diria, código q devo seguir, ciência q devo obedecer [!pra isso seria preciso q o mundo, a natureza, a história, deus y o homem existissem: q lógicas, gramáticas, sintaxes, religiões, mitologias, ciências significassem além das suas estreitas legitimidades de crença y poder: o festeiro conhecimento dos idiotas]: a linguaingua, q nasce da literatura [não ta no mundo, não é folclore, não é regional, não é encontrável pra dá entrevista, pra fazer parte do circo das mídias], q nasce do mais profundo de mim y de mim no y contra o mundo (enfrentar o horror), q é a própria literatura, não é o q parece: só podemos dizer q é “portuguesa” ou “brasileira” porq aceitamos apenas sua “igualdade”, sua “similaridade”, sua “proximidade”, sua “comparatividade”, sua “legibilidade” de formigueiro pro formigueiro, y deixamos de ver, por uma espécie de má-fé mais q doentia, sua estranha diferença, sua mais radical singularidade, seu desvio perigoso, sua articulação negativa, sua instabilidade, sua condição estrangeira, migrante, antinatural, guerrilheira, transversal, vinda do corpo pro corpo: deixamos de ver sua situação terrorista simplesmente pra trazer ela pra “dentro de casa” (domesticar a linguaingua é transformar ela em Língua): o familiar como aquilo q não me desespera, não me desestabiliza, se organiza, se reproduz, compartilha, me mantêm na sombra, no caseiro, no doméstico: a crítica literária (coisa somente pra Literatura) faz esse papel de tornar familiar o q não é [uma das suas funções é adestrar, tornar palatável, torcer a literatura até ela aparecer-parecer como Literatura: ver o q foi feito com kafka, com büchner, com beckett: ao mesmo tempo como tornam um literato ridículo, capacho y chocho como machadinho, típico oligarca funcionário público y agregado, covarde y camaleão, no eixo duma Língua, excelência dum cânone, princípio y centro do lócus de inspeção], comparar o incomparável: o q não é dessa terra y de nenhuma, desse corpo ou desse tempo: pôr numa ordem o q nasce pra desordem, o q é disperso y somente com malabarismos se mantém “sistema”: canonizar, explicar ou esquecer é não querer reconhecer a diferença terrorista ou essa possibilidade [não esquecer q a Língua é “obrigação do dizer”, estrutura exigindo, ditando, forçando a falar daquela maneira y não de outra: a Língua é um se sujeitar, linhas coercitivas, fascistas (“fascismo” como “proibições do dizer” y do “cristianismo” de confessionário como “imposição do dizer”: dimensões estruturais): o respeito à autoridade do comum, do gregário y da repetição: pra ser compreendido, pra ser aceito a Língua dobra o falante, o escritor ao seu poder: não há como fazer, como ser diferente: a literatura enquanto enfrentamento do horror deve levar em conta isso y sistematicamente fazer avançar as “margens” confundindo o “centro”: apesar de tudo, só há liberdade enquanto linguaingua como um verme vírus dentro da Língua: a linguaingua como aquilo q com fome devora desde dentro a Língua (devora o horror): por isso mentir, trapacear, perturbar, roer por dentro a confiança nos p-actos (semânticos, gramaticais, ficcionais, estatais, pedagógicos, científicos, filosóficos, religiosos, morais, naturais, sexuais, corporais, raciais, nacionais, regionais) q reforçam a Língua como foi construída y como é mantida: a Língua é muito mais q gramática, fonética, sintaxe:
*. sem caracterização socioeconômica, histórico-psicológica, política ou cotidiana: o horror não é “performático”: apesar de também ser os “textos” o q compõem os contextos, quando se performatiza em personagens, cenários, histórias, é menos q patético (pathos), é somente ridícula ingenuidade, o q é voltar y reforçar o horror artisticamente. o contexto, normalmente, é apenas um imaginário se impondo como única realidade, como real, um ta-aí, um ao redor existente pra todos y ponto final: como se todos os textos não fossem textos, mas houvessem se desgarrado, transtornados real, ou melhor, o real, domado em suas “várias camadas”, houvesse se traduzido, y cada vez mais y melhor num vasto “progresso do espírito”, em textos q representam mesmo o devir em seus devires. a literatura não parte desse “saber iluminista”, racional, sociodemonazifascistacristão, dessa razão q, duma maneira ou doutra, sai sempre incólume do seu trajeto, seja entre sereias, circes, polifemos, seja em mosteiros, igrejas, monastérios, seja protegido pelos “aliados” pra ensinar ciência y tortura pelo mundo: sempre triunfante impondo o mesmo: não cabe à literatura salvar ou dramatizar a razão, mas destroçar ela como cristalização imaginária do horror q transforma todos em “porcos desde sua gênese” (ciência y circe). todos os cenários, todos os panos de fundo, todos os arredores da Literatura, y da História, são imaginários esquecidos q são imaginários [q grande descoberta], textos esquecidos q são textos: os personagens só podem agir coerentes com esses imaginários alienados. somente quando a literatura força, desde muito dentro, forçou a Literatura a um plus, é q apareceu a cisão entre esse imaginário doente, amnésico, com as forças da linguaingua, forças de viver no horror com plenitude: o resto é fabulação, “novela das oito”, folhetim. literatura é esse plus sem as “ilusões de realidade” necessárias pra Literatura y todas as Artes:
*. contra tradições / contra tradicções: o horror é a tradição [q é sempre tradicção: vista nos seus extremos patéticos na leitura de poemas y “textos literários” por secundaristas y atores/atrizes] porq ela jamais foi enfrentamento do horror: ela é o horror canonizado: pode y deve ser infestada somente naquilo q pode ser transformado em literatura, em positividade, em inversão: além de infestada a tradição deve ser sodomizada: ela tem pavor de qualquer forma diferente do desejo, da “natureza”, da lei, do q ela gosta mas nega: a tradição sodomizada [sodomia em cadáver: necrofilia: é preciso mais: coprofilia: sem ser coprofílico não se consegue entrar em contato com a tradição], bem sodomizada, perde o juízo, o controle, grita feito porca no cio, cadela entre cães [y degustamos esses gritos violentados: com esses ganidos articulados podemos ter uma visão do horror]: a tradição deve ser sodomizada profundamente [também sugamos seus espasmos de carne fria, carne morta, carne podre y ossos expostos]: essa é a primeira coisa q devemos fazer com a tradição: depois podemos começar realmente sua refundição completa, reescritura: pois a tradição deve ser posta fora da sua temporalidade, dos seus eixos pra significar pra literatura: ela deve ser desdobrada: posta na temporalidade da literatura: retirada do passado y do passado-pra-nós y exposta enquanto imediato do presente, desdobrada num y prum enfrentamento literário: o passado só significa enquanto desdobramento no imediato: horror enfrentado em sua pulverização ou cristalização hegemônicas:
*. sem experimentalismo, ou melhor, experimentalismo a serviço da positividade do enfrentamento (sempre o inverso da positividade das manadas) y da ironia [ironicamente o experimentalismo nunca é genuíno: pra ser experimentalismo é preciso q o produtor y o consumidor acreditem piamente nisso, q isso realmente tem valor: o valor da literatura não é experimental: é valor fundante: a vida, enquanto o valor da Literatura é degradação subserviente, valor per-vertido da-nação pro formigueiro]: o experimentalismo, a novidade, o “moderno”, o “atual”, são apresentações da mercadoria (representação “inconsciente”, q pode ser chamada também de má-fé): como-ela é triturada, produzida, circulada y consumida:
*. a publicação da literatura (resistência, guerrilha, terrorismo, infestação) difere da publicação da Literatura (continuidade da tradição, estilo, vaidade, representação): enquanto uma é negatividade, empreendimento da consciência contra o horror, não tendo o “leitor” (consumidor) em nenhum momento, importância alguma: sua ação se faz no tempo, longe do consumidor, mas com fragmentos negativos q irão tomar corpo contra a hegemonia: a outra é mercadoria [faz parte, é gênero, é sexo, é cor, é posição, é nome, é oligarquia], ou, no máximo, “documento/monumento”: exige ser mercadoria, exige y proclama o consumo y o consumidor: se entrega [sem dizer q se entrega] y exige se integrar [sem dizer q deseja se integrar, q seu projeto é integração], vender, se vender [negando piamente q se vende, q se fez pra “negociar”, pra intermediar, formatar pro formigueiro]: fazer parte da mídia, da história, da cidade, do estado, do país, da Língua.
quem faz uma é o libertino (aquele q liberta, o liberto): quem faz a outra é o escritor (o escrivão da hegemonia, membro da oligarquia das letras):
*. a história, a estrutura narrativa, o sistema-tema, o encadeado, é efeito secundário da articulação em feixes dos horrores do horror: os elementos soltos no tempo, no espaço y na vivência, quando se articulam em outra consciência, criam um espelho-isca q é a “história”: essa miragem mira y faz mirar a virtualidade: esse é o meu olho, essa é minha face, eis minha vida:
*. literatura é guerrilha contra o tempo: poéticas da negatividade.
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