sábado, 31 de janeiro de 2009

a Literatura brasileira y o mercado


“(...) engenhoso aparelho de aparições e eclipses, espécie complicada de tablado de mágica de prestidigitador, provocando ilusões, fantasmagorias, ressurgimentos, glorificações e apoteoses. (...) Os livros nas redações têm a mais desgraçada sorte se não são recomendados e apadrinhados convenientemente. Ao receber-se um, lê-se-lhe o título e o nome do autor. Se é de autor consagrado e da facção do jornal, o crítico apressa-se em repetir aquelas frases vagas, muito bordadas, aqueles elogios em cliché que nada dizem da obra e dos seus intuitos: se é de outro consagrado mas com antipatias na redação, o cliché é outro, elogioso sempre mas não afetuoso nem entusiástico. Há casos em que absolutamente não se diz uma palavra do livro. (...) Com os nomes novos não havia hesitações: calava-se, ou dava-se uma notícia anônima, ‘recebemos, etc’, quando não se descompunha. Aos olhos dos homens da imprensa, publicar um livro é uma ousadia sem limites, uma temeridade e uma pretensão inqualificáveis e dignas de castigo. (...) Fora deles, ninguém pode ter talento e escrever, e, por pensarem assim, hostilizam a todos que não querem aderir à sua grei, impedem com a sua crítica hostil o advento de talentos e obras, açambarcam as livrarias, os teatros, as revistas, desacreditando a nossa provável capacidade de fazer alguma coisa digna com as suas obras ligeiras e mercantis. Por acaso, se o trabalho consegue vencer a hostilidade de semelhante gente, sempre cheia de preconceitos, eles ficam a matutar, pois não admitem esforço e honestidade intelectual em ninguém: de quem o autor copiou? Os mais hábeis daqueles que estão de fora, porém, quando premeditam a infame ousadia de publicar, arranjam preliminarmente relações de amizade nos jornais, de modo a obter um bom acolhimento para o seu trabalho.”
Lima Barreto
“Recordações do Escrivão Isaías Caminha”,
Obras Completas, vol. I: 174/237/238,
Brasiliense, São Paulo, 1956.


não há exceções: a Língua, como uma das articulações monstruosas da hegemonia [a totalidade desde dentro: as individualidades curvadas à manada, em reverência (as singularidades são perseguidas, torturadas y mortas): o q submete as “periferias” y as “fronteiras” ao “eixo”: todos os domínios do sentido], é campo de força q preda, persegue, constrange, tortura, abocanha, roí, devora, engole, incorpora y expele as exceções. dentro dela tudo faz parte: como no y pro mercado tudo é mercadoria, dinheiro, trabalho, lucro, a órbita da Língua é equivalente à órbita do mercado: nada se faz fora dele y, feito, ele anexa, faz fazer parte, reposicionar até resignificar, deixando de ta onde devia ta, ser o q devia ser, recusar o q recusa, positividade contra a negatividade do horror aparecendo como simples negação: tornam doce o amargo, leve o ácido, suave y aceitável a positividade intransigente, inegociável, tornam sublime o ridículo, tornam minúscula y conveniente a forma q não cabe. y todo criador termina como produtor, como criado, como mais um servo diante de servosenhores y da manada esfuziante.
tomamos aqui um texto base (bourdieu, pierre. o mercado dos bens simbólicos. in a economia das trocas simbólicas. perspectiva, são paulo, 1974) y sobre ele inscrevemos outra de outra perspectiva, outro campo, outro corpo, outro lugar, outra destinação, outra positividade, fora do simples citacionismo. o texto anterior permanece aproximadamente como “esqueleto fantasma”, indicador de sentido q se esgarça, se transforma, diz outra coisa, perde a respeitabilidade, a autoridade, o lócus privilegiado. os pedaços q podem permanecer (manchas, ossos, cartilagens, cabelos, unhas, dentes do outro texto), entre aspas, não é pra garantir sentido, posição, respeito, mas pra reverter, pra negar, pra resimbolizar, ser artifício pra outra coisa. vermes vírus dentro y sobre um corpo, espalhando essa carne, transversalizando, hipertextualizando, inseminando, disseminando, espalhando, in-vertendo, ex-pondo. isso mesmo, esse mesmo método [como também a literatura infesta a Literatura y a tradição, por dentro, desde dentro, transtornando o outro naquilo q ela y somente ela pode ser], é feito inversamente pela crítica, pelos leitores y, principalmente, pelo mercado com as divergências, as oposições, as negativas radicais: tudo posto na forma re-querida.
a história do “sistema de produção de bens simbólicos” literários no brasil sempre teve ligada a uma específica oligarquia, a determinadas posições sociais, sempre pertencendo, no todos y em cada parte, à hegemonia. esse “campo intelectual e artístico” se formou dentro da oligarquia das letras, sob essas posições y por suas necessidades. esse sistema não separava y nem separa sua própria constituição y exercício da fundação y da manutenção da nacionalidade verde-amarelo [“fascista”, muitas vezes “nazista” y, o tempo inteiro, autoritário, excludente y democrático ou socialista (o poder absoluto das manadas), conforme as flutuações dos poderes: sempre sociodemonazifascistacristão, se esquecermos o ridículo “período imperial”, onde se formatou a Literatura brasileira y a oligarquia das letras], das mentalidades cientificistas, historiográficas, sociológicas y, principalmente, jornalísticas via crônica, crítica y contos, atividade entre o jornalista, a notícia y o “leitor amigo”, sem contar com uma poesia recitativa, bacharelesca, eclesiástica y estudantil [carlos drummond de andrade é, por exemplo, essencialmente um poeta provinciano, integrado y oligarca das letras, muito bem articulado y sempre ao lado y dentro do poder: criador de “crônicas poéticas” q se tornaram o eixo poético do lócus de inspeção via padrinhos, afilhados, educação y a manada em geral: a “poesia” do lócus de inspeção é, praticamente toda, apenas “crônica poética”, ou pastiche poético regionalista]. o “sistema de produção de bens simbólicos” em geral sempre teve intimamente articulado y produzindo as ideologias q consolidam campos da hegemonia [fechando buracos, completando discursos, fazendo ver políticas, apoiando perspectivas, excluindo discordâncias], sem jamais dizerem contra, sem jamais atuarem acidamente ou tentarem vida realmente independente [na teoria, nas entrevistas y nas memórias é tudo muito diferente: o escritor brasileiro parece sempre outro, nunca a vaca de presépio, o bedel, o funcionário, o jornalista, o servo de apoio: uma quase impossível positividade radical, ou uma vida positiva contra o horror, é sempre pastiche q esconde integração y conformismo].
no “brasil” a chamada “vida intelectual e artística” se mantém sob tutela do estado, da igreja (quando não é penitente é católica sem saber, sem ir pra igreja) y da própria oligarquia das letras, q não se distancia muito dos lugares de poder extraindo y difundindo suas “demandas éticas y estéticas”, demandas geográficas y gramaticais, exatamente desse lócus periculoso [a Literatura brasileira é a dimensão “inocente” desses lugares, a ética capacho dos servos dos servosenhores].
não há “libertação progressiva”, “processo de autonomização” da Literatura brasileira com relação à hegemonia na medida em q vai se constituindo como segmento, como “categoria socialmente distinta” porq os escritores (os escrivães da escritura falsa) levam em “conta exclusivamente às regras firmadas pela tradição” y essa tradição é de constituição da própria hegemonia via idéias engajadas no sistema simbólico y imaginário da nação (por trás de todos os lugares de narrar tão instituições, mitos, nacionalidades, empregos, classes, relações pessoais y grupais, castas). por isso a oligarquia das letras nunca teve propensa a “liberar sua produção e seus produtos de toda e qualquer dependência social” ou “dos controles acadêmicos e das encomendas” dos vários poderes em circulação. essa dependência, esse controle, esses poderes não são forças externas, mas dimensão inescapável da própria oligarquia das letras y do seu “produto” [a Linguagem a serviço da “construção nacional” y como bem de mercado]. não há Literatura brasileira sem esses poderes, sem as específicas ilusões dos membros da oligarquia das letras, sem suas posições de capacho geral diante da hegemonia y da própria oligarquia das letras, o q é uma posição diante da educação, da política, das mídias y, principalmente, frente à positividade necessária pra se realizar uma literatura [a Literatura brasileira é extensão ridícula, monstruosa y inchada de leonardos pataca, de “peris”, de “jecas tatu”, de “macunaímas”, de joão grilos, de “macabéas”].
a constituição da Literatura brasileira é paralela à criação do estado y suas matrizes ideológicas, ao mesmo tempo da íntima relação q os escritores mantém com a oligarquia das letras y seus membros, inclusive com a desculpa da relação com os leitores q, pro sistema literário brasileiro, existe somente no imaginário [um punhado de servos loucos pra entrarem no “mercado”, na “panelinha”, na honra de escravo, nas migalhas dos agregados, nos pequenos furtos y poderes dos funcionários públicos, nos minúsculos consumidores y seus prazeres], não servindo pra impor uma dimensão de valor, de reforma ou de revolução, mas de dependência conceitual, sentimental, mercantil: os leitores existem somente como algo q deve ser servido, não como dimensão inexistente y ao mesmo tempo exigente dos valores realmente literários, ou seja, aqueles q devem ser formados por uma literatura, não satisfeitos em suas necessidades. a má-fé dos leitores exige a má-fé da oligarquia das letras, a má-fé dos livros, a má-fé das editoras y de cada escritor em particular [o q não seria possível se a Língua não fosse a própria má-fé y suas possibilidades]: o q a má-fé não reconhece como verdadeiro é eliminado. o leitor enquanto consumidor ou alguém pra quem se escreve é aberração ridícula [principalmente porq o “leitor brasileiro” é um campo exíguo, restrito y restritivo, sendo praticamente constituído por “escritores”, “poetas”, “críticos”, alguns “professores” y um punhado de masturbadores impotentes (a “masturbação” sempre como aquele poder q não leva a nada): o q “sempre” oscilou entre mil a três mil idiotas (os letrados de sempre) cercados pelas vastas manadas dos leitores do consumo, leitores obrigados pela educação y os costumeiros leitores ociosos nas repartições, nos casamentos, nos pontos de táxi, nos bares, nas universidades: o grande perigo da Literatura brasileira se dá enquanto linguagem formatadora, apoio crucial às forças da educação, da mídias, das “interrelações gramaticais” sempre conservadoras: se a Literatura é inútil, infantil, aguada, ineficaz por um lado, por outro pe periculosa exatamente por não deslocar a Língua q co-ordena esse “pequeno mundo”]. ele transforma o texto em marmelada, em produto de limpeza, em algo q se gasta no uso y é feito pra se diluir ao ser usado, exigindo reposição. enquanto “alguém q escreve” o escritor é anulado, isto é, se processa um apagamento. o escritor é aquele produtor q produz a mercadoria necessária, re-querida. nos dois processos há dissolução: a do leitor y a do escritor. resta o produtor, a mercadoria y o consumidor. y, sem querer, se saiu da arena própria da Literatura [a Literatura brasileira é uma grande palhaçada periculosa], do escritor, do leitor y do texto, todos agora travestidos em entidades econômicas, sociais y históricas. o leitor da Literatura brasileira, cria y sabujo da oligarquia das letras, jamais deixou de ser “... esse amigo velho a quem sempre prometemos algum prazer na primeira página, cumprindo a nossa palavra, bem ou mal, nas páginas seguintes” (dumas, alexandre. a tulipa negra. lello & irmão, lisboa, 1945: 6). o escritor segue y também é esse mesmo leitor. ele é o mesmo idiota de sempre, aquele q produz má-fé escrita, tando sempre numa posição negativa sem saber [a literatura só pode ser inscrita pelo “único” de stirner, pelo “libertino” de sade, jamais pelo “funcionário público”, pelo jornalista, pelo “agregado escritor” q acredita catolicamente no seu lócus, no seu pai, na sua Língua, no deus, nos servosenhores, y em si mesmo como cidadão, homem, mulher, homossexual, branco, negro, índio, pobre, rico, brasileiro].
daí porque não há “nova definição da função” do escritor y da Literatura brasileira, mas mais uma dimensão do país, do povo, do território, da Língua, do mercado, do estado. tal processo inicia com a criação da “idéia de brasil”, com o império y seus projetos, quando o lócus de inspeção é lentamente projetado y a oligarquia das letras consegue feição definitiva [não apenas posição social y econômica, mas posição na produção, reprodução y manutenção ideológica da hegemonia, lócus policialesco y funções policiais na educação, nas mídias, nas relações pessoais lingüísticas], com tipo específico de “afirmação” y “legitimidade” q retira do escritor a possibilidade de “legislar com exclusividade em seu próprio campo” [o lócus de inspeção se faz com variações específicas entre os modelos jornalísticos, historiográficos y sociológicos tornados literários: o escritor brasileiro é boneco de ventríloquo q tem certeza absoluta q fala por si mesmo: boneco desregulado ou ventríloquo louco], passando esse campo antes pelas estruturas consagradas [Língua, gramática, companheiros, o bem Escrever, o Estilo: eles escrevem com a gramática, jamais com a linguaingua, com a violência da positividade contra o horror: a velha luta contra o “niilismo” enquanto realidade].
o pretenso “movimento do campo artístico” literário não foi “em direção à autonomia”, mas a da relação camuflada y da cristalização oligarca, o q se realiza plenamente desde a “primeira geração” y já ta consolidada com machadinho, q faz parte da “segunda geração”. não há “sucessão” dos escritores no sentido de mudança, consciência ou complexificação, mas de sujeição integrada impossibilitando ver outra coisa (!o mercado agradece). o “medalhão” de machadinho é o mesmo pulha de “famigerado” de guimarães rosa, y todos os dois (os escritores, não os personagens) fazem parte, naturalmente, do lócus de inspeção: seus autores foram pulhas da mesma maneira, por isso disseram tão bem suas castrações como se não pensassem assim, o q seria confirmado por outra ala importante da oligarquia das letras, os críticos, os professores, os resenhistas, os leitores: escritor pulha, texto pulha, crítico pulha, leitor pulha [todos não passam de “bentinhos”, de “donas plácidas” y os escritores todos são imagens perfeitas de “josé dias”, todos alardeando sua independência, sua plácida autonomia, mas jamais pra mudar, pra levar y elevar a consciência a um lugar de negatividade: a Literatura brasileira diz sem se comprometer, sem levar nada longe demais: não diz o agregado, o escravo, o trabalhador pra ser contra, pra expor, pra articular o horror, mas pra descrever, organizar, historicizar: o horror sai sempre incólume, todos saem sempre incólumes: quando diz um pouco mais é por excesso do reprimido: y alguns personagens de machadinho, de lima barreto, de jorge amado, de graciliano ramos, de murilo rubião, de guimarães rosa, de clarice lispector, são exemplos dessa pressão da positividade contra a pusilaminidade do escritor capacho: a negatividade servil é tão grande, tanto é reprimido pela má-fé ordeira da Língua, pela posição subalterna diante da dignidade, q um dia brota um personagem q parece dizer mais q o normal, parece desnudar algo, parece ser mais pleno q outros: só parece: eles não ultrapassam seus limites nem levam seu tipo a estourarem: são vitoriosos na sua maneira de ser: a crítica, no fundo, não passa duma crítica de fofoca (essa “dona plácida” não tem jeito), ou a justificativa torna plausível o personagem y a própria vida integrada em estados ditatoriais (graciliano, rosa ou drummond, por exemplo): todos muito pouco “famigerados” y demasiadamente professores medrosos, mentirosos y cientes demais do seu “couro”: personagens q em seus tipos desvendam seus autores, jamais são terroristas dessa “situação”].
o “desenvolvimento do sistema de produção de bens simbólicos” literário no brasil não é paralelo a um “processo de diferenciação”, q residiria na “diversidade dos públicos” y nas “diferentes categorias de produtores”. não há “desenvolvimento” no sentido de complexificação, de modificação, de revolução, de mutação, de algo q foi desenrolado, desdobrado, de aumento de capacidade, crescimento, positividade da vida contra o horror, mais consciência y clareza, mas do funcionamento circular do modelo estabelecido inda no século xix (o lócus de inspeção) y no fortalecimento da oligarquia das letras via universidade y jornalismo (não ser jornalista ou não ta ligado a eles é afastamento brutal da oligarquia) sob o jugo de editoras q poderiam muito bem vender bananas se descobrissem de repente q o lucro é maior: a “diferenciação” é aparente, pois é somente mudança de nomes (mas ocupando os mesmos lugares imaginários) y os mesmos livros, escritos de outra maneira, o diferente pra reforçar o mesmo: o público, estranhamente, também não é diferente, mas moldado ao bel esforço da oligarquia das letras via mercado, mídias, educação y valores sociais das manadas. os bens literários foram valorizados enquanto mercadoria não por trazerem novos valores, mas por reforçarem os velhos de outra maneira: as formas do mesmo. o “caráter mercantil” da “obra literária” não subsiste independente dos “mitos de fundação”, da hegemonia. não são obras q se insiram nas feridas espinhos y venenos, vírus y bactérias, mas obras q tentam completar os vazios, curar as feridas, expor os excessos, respeitar os limites, fazer moda, repetir estilos y formas, subscrever geografias, cartografias, histórias, estado y nação, escorar visões de mundo, dar prosseguimento a história, conseguir um lugar pra si mesma enquanto mercadoria, enquanto lugar de poder pra seu produtor (se esse lugar for um emprego, lugar na mídia ou a garantia no emprego, !perfeito).
tanto na “fundação” da Literatura brasileira no século xix quanto no processo de constituição dela enquanto produtora de mercadoria, y os escritores como seus produtores, não se afirmou, nem se poderia ter afirmado, “a irredutibilidade da obra” na sua relação ao mercado, mesmo sendo “coisa vendida” (de macedo y seus escravos vendedores de livro a paulo coelho mundializado não há diferença a não ser na amplitude y nas estratégias de venda: a tapioca, a cocada, o livro y o pão-doce são os mesmos), assim como “a singularidade da condição” do escritor, livre da hegemonia, da tradição, da língua, das alianças, dos jeitinhos, do estado, das instituições, da igreja, das oligarquias y da própria oligarquia das letras. em vez de autonomia (do escritor y da obra) o q se fez, o q se consolidou foram as relações, as formas y estilos básicos transformados em modelos, padrões, gosto y suas variáveis aceitáveis ao mesmo tempo em q a oligarquia das letras se tornava a única visibilidade (invisível) y o horizonte da nação o limite do lócus de inspeção.
a “constituição da obra” como mercadoria y a existência de escritores como produtores singulares y reconhecidos (“uma categoria particular de produtores de bens simbólicos destinados ao mercado”), se fez na y com a constituição das ideologias nacionalistas y não no y pro “surgimento de uma teoria” da literatura, um projeto positivo contra o horror, mas no fortalecimento duma Literatura brasileira, equivalente ao fortalecimento do brasil enquanto país, Língua, povo, território (o mesmo processo brutal de exclusão, eliminação y tortura pra estabelecer o país foi correlato a Língua y a Literatura brasileira). não há “dissociação” entre a Literatura “como simples mercadoria” y a hegemonia, mas complementação, relacionamento de apoio arquitetônico y funcional. essa relação íntima não realiza a “ruptura dos vínculos de dependência” dos escritores em relação ao estado, aos governos, aos patrões, aos mecenas, ao mercado, ao “recinto da repartição”, aos amigos y familiares, às classes médias, aos agregados y funcionários, a uma oligarquia de letrados y seus modelos evolutivos (plasticidade q transforma o mesmo em formas falsas, isto é, formas q escondem sua configuração, suas relações y dependências), transformando sua liberdade em algo formal, escondendo suas dependências, sua submissão não somente ao mercado mas, antes de tudo, a hegemonia y a oligarquia das letras enquanto produtora dos “bens simbólicos” ligados a escrita, a educação, as mídias y ao nacionalismo verde-amarelo [a Literatura brasileira é, na verdade, uma “violência simbólica”]. o lugar do escritor é ditado não pelo mercado, não pelo valor literário, mas por sua posição diante dos dois “sistemas” (hegemonia y oligarquia das letras). o escritor não se afasta “de seu público”, mas escreve no mesmo diapasão dele, mesmo quando se considera y todos consideram ele um “gênio autônomo e criador independente”. o leitor, ou o público, ou o espectador, aparecem como “reflexo” apaziguado desses sistemas em movimento: sua função é de claque, não de fluxo q leve a uma autonomia do escritor (leva pra moda, pro mesmo, pra auto-ajuda y pro misticismo, jamais pra literatura), o q seria ir contra a oligarquia das letras, o q é quase o mesmo q ir contra o brasil (a hegemonia): sua função básica é pastar capim servido como caviar. o escritor y o leitor são modalidades do mesmo diapasão, sambas duma nota só.
principalmente porq a figura do leitor é invenção de mercado, de autores miseráveis prontos pra produzirem uma mercadoria específica (o livro) pra minorarem sua desgraça de não ter mecenas, não ter o rei, a corte, os clérigos, a ordem [a busca do letrado por um “lugar ao sol” parece a luta do pícaro pela sobrevivência: os dois são astutos o suficiente pra se manterem à tona, pra conseguirem sobreviver, mas o letrado, ao conquistar um lugar, difere da conquista “objetiva” do pícaro (o pícaro não é o “brasileiro”, mas os letrados): ele instaura um lócus periculoso: esse lugar é imaginário, violentamente imaginário: pra existir ele se impõe como campo de forças q mantém a reprodução de lugares similares, de agentes similares, o respeito a si mesmo como réplica necessária do respeito dos outros lugares: y impostor tanto quanto o pícaro: todo escritor é um impostor, um servo da Língua, da tradição, da nação, de tudo aquilo q os servosenhores consideram intocáveis: na verdade a Literatura brasileira inda é escrita pra eles, em nome deles travestidos de “pessoal”, “memorialístico”, “imaginação”, “Literatura”, “expressão”: todas as desculpas não fazem mais do q esconder os servosenhores]: um comprador (o leitor), saído do lixo industrial y do desastre da servidão, ávido por se mostrar à altura da sua nova posição: tudo através duma espécie recente y híbrida de atravessador y comerciante (o editor), aquele q produz, divulga y distribui a mercadoria segundo os ditames da sua formação y gosto mais os ditames y gostos dos consumidores (q são, na verdade, os mesmos, vindos da “formação” dos letrados pela oligarquia das letras).
antes da figura do leitor (produção do mercado) aqueles q liam não eram leitores, mas elementos internos y escolhidos, integrados numa ordem: sua leitura era a leitura da ordem. sua leitura se fazia na mesma onda entre o livro y o leitor. o livro não era mercadoria, mas valor de uso, algo próximo y íntimo, algo q fazia parte do corpo, das mãos, das crenças. essa forma de leitor, abusivamente elitista y impotente contra seu mundinho de clérigo, desapareceu dando lugar ao leitor simples, difundido y comprador dos seus livros ou leitor de bibliotecas. esse também praticamente desapareceu ou ta em franco desaparecimento. é fóssil. esse leitor deu lugar ao público. não há mais em nenhuma instância um ser singular leitor, mas o público. tudo é feito desde o começo (feitura do livro) pensando nele. seu interesse não ta mais em ler, mas em comprar. o próprio autor já desapareceu, transformado em produtor y o antigo editor, fase do leitor simples, é agora o comerciante, enquanto o livro é somente mercadoria. todos deixaram de constituir, de impor uma im-possível força im-positiva, singular y violenta. a questão não é voltar a uma situação anterior, mas redirecionar a ação geral contra a reificação da negatividade.
como todas as forças q geraram a Literatura ocidental desde o século xvii foram mercantis, ou foram se estabelecendo y fortalecendo graças ao mercado, a Literatura tem se tornado o espaço escrito do mercado, a dimensão controlada do capital, uma das ideologias nacionalistas, um dos cimentos da hegemonia, um dos lugares de fabulação, de produção mitológica. interioridade enquanto sistema de crenças num exercício educacional pro trabalho y descanso do trabalho.

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