sábado, 31 de janeiro de 2009

a literatura não é mimética



*. a literatura não é mimética, não gera crenças ingênuas (mas perigosas) q existe um real q ela copia, imita, representa, recria, simula, ecoa [a literatura ao não ser reprodução, modelo, plágio dum real, o real enquanto casca imaginária, não pode ser “avaliada” segundo esse critério]: a literatura cria radicalmente seu real (enfrentamento): a relação entre o “real literário” y um pretenso real [q é sempre cristalizações discursivas: o “real mesmo”, além de não existir, é impressão y proposição do imediato do presente, o ta vivendo q some ao ser vivido, q “pensa” poder ser traduzido y transposto “em palavras”: no fundo o respeito religioso pela “palavra escrita”, q vem das manadas y dos servos dos servosenhores, deve ser verdadeira: deve representar: o escritor como bobo da corte q re-apresenta representando a “verdade”, o “real”, q pra ele é Linguagem, retraduzido em escrita: duplo fantasma periculoso]: q o “real literário”, ou qualquer escrita, pode ser réplica, reviver, reprodução q pode ser avaliada em sua vero-semelhança: como se o viver fosse palavras, y as palavras o viver: a relação é sempre “literária”, “discursiva” (mediada por um letrado y seu fabular compro-metido: função dos servos dos servosenhores): entre palavras: presunção de tradução: lógica da identidade: a lógica da oligarquia das letras.
*. o poeta platônico, tratado como imitador [por isso julgado y expulso da república, além de poder trazer uma instabilidade perigosa pro ser y pra tirania socrático-platônico], é impossibilidade: criação dum sistema q acredita q as “sombras”, o real, duma maneira ou de outra, são reais y imitáveis: q outro mundo ideal y de idéias também pode ser reproduzido (pelos filósofos), ficando parte como erro y a outra como verdade. sem coincidência com o verdadeiro, a mímesis é sempre inferior, incompleta y deformante: ponto cego (o ponto da Arte y da Literatura: todo escritor, toda a Literatura, é platônico).
*. a Literatura seria um duplo inválido: a modernidade aceitou esse duplo em sua pretensa positividade (?científica), mas inda assim duplo: a Literatura brasileira (o lócus de inspeção) é duplo subalterno da hegemonia (os servos dos servosenhores y suas “instalações”): cópia do “ideal europeu” y do imaginário específico das “elites letradas” (os servos): realista, naturalista, jornalística, historiográfica, sociológica y memorialística: a Literatura brasileira luta pra ser mimética (Língua imitando linguagem: onomatopéias das manadas, dos cardumes), pra representar, pra reapresentar um real q é, na verdade, simulacro não só do “conjunto da sociedade” imbecil, submissa y castrada, mas projeção ideológica da hegemonia tornada o real [mesmo saindo do seu imóvel “momento atual”, cria um tempo sempre linear, obediente, em-cadeado].
*. o horror (a virtualidade, a hegemonia, o imediato, o tempo, a normose) não é o “real” [aquele q é apresentado “textualmente” como se fosse o imediato do presente: o “horror” da mídia], mas fragmentos pulverizados do real enquanto dimensões da “totalidade” dentro das redes polidimensionais imaginárias, vivenciais, simbólicas, oralizantes, “literárias”, q são o tempo apenas em seus desdobrares [contextos: seu lócus hipertextual é o entrenós, não ta no “fato”, na “história”]: a literatura é um dos enfrentamentos, não a imitação, a representação, a cópia, a “memória”, a expressão literária [historiográficas, sociológicas, jornalísticas: ficções esquecidas q são escritas: q reproduzem apenas mais escritas q não se sabem] de exterioridades: literatura não é dramalhão suburbano, folhetim de classe média, diário de letrado, con-fabulação masturbatória.
*. literatura não é mímesis: mas a Literatura faz questão de ser mímesis. de acreditar como jornalistas (q são “testemunhas da história”), historiadores (q “contam o q aconteceu”), memorialistas (q crêem piamente q “isso aconteceu comigo”), q sua escrita não é escolha, torção necessária pra comunicabilidade tanto de grupos quanto da própria manada “como um todo”: como sociólogos, antropólogos, economistas q apresentam, sem saber, sua escritura como se fosse o real, aquele q é pastiche do imediato do presente: marca platônica y aristotélica, q atravessa a ocidentalidade inteira (sendo aceita “inconscientemente” pela ciência) se põe a julgar o “literário” y o “artístico” pelo “real” (se bem q é julgado antes pelas redes integradas do q deve ser, do como deve ser), sendo aqueles a cópia y este a verdade [pros cristãos de guarda, se a verdade y a realidade não forem, duma maneira ou de outra, platônica-aristotélica, científica y filosófica, lógica, estatal y gregária, protegendo o q deve y não deve ser diferente, há uma “comoção de placas”, terremotos, tempestades, angústias, repressões, dores, incômodos, ilegibilidades y, no limite, cadeia, tortura y morte, no mínimo esquecimento, silenciamento].
*. o grande corpo-campo do horror não é visivelmente explícito (não se apresenta na visibilidade das normoses): seu aparecer se dá primeiro, em bloco, como a própria efetividade (o real) y, depois, fragmentariamente em “situações” normalmente não percebidas (nem em blocos nem em momentos) como sendo o horror por ser escondido por crenças y justificações [enquanto a individualidade reintegra o horror em justificativas filosóficas, religiosas, políticas, midiáticas, a singularidade ex-põe y enfrenta ele em seu não-ser monstruoso]: por se apresentar como “normalidade”: mesmo q doa muito, humilhe mais q o suficiente, torture mais q o necessário, esteja entranhado nas “práticas sociais” y nas suas justificativas, no trabalho, no cotidiano, nas festas y nos rituais, nas técnicas y nas tecnologias, nas mercadorias y nas “relações humanas”: a literatura costura esses pontos soltos, mas atuantes como constitutivos y necessários pra hegemonia, num feixe articulado, mas não verossímil: no entanto nada mais vero q esse estranho símile do horror, não do real: o horror do holocausto, por exemplo, não aparece nas fotos, nos relatos, na historiografia, na sociologia, na Literatura q duma maneira ou de outra imita o “vivido”, mas em obras onde aqueles “horrores” se articulam em sua especificidade sem se perder no “ali”, no “nunca mais”, no “historicamente datado”, no localismo ou no “sociologicamente compreensível” (o horror não pode ser compreendido nem aceito, principalmente como é, nas normalidades brutais do cotidiano): o horror, os horrores do holocausto foram ditos em várias obras “anteriores”, em textos q nada tinham a ver com o holocausto, ou em obras q diretamente nada dizem do específico, mas do horror disperso, sua legítima forma, y enfrentam ele em sua fluidez monstruosa q não foi dum lugar, dum tempo, nem produzido por “um povo” nem sofrido somente por “outro povo”, mas constituição essencial não apenas da modernidade, mas da ocidentalidade: o holocausto é o eixo nu y os extremos tanto da modernidade (sólida, líquida ou gasosa) quanto da própria ocidentalidade: é sempre uma de suas possibilidades, uma das suas saídas y, disperso, sua assombrosa normalidade: o eixo vivo da ocidentalidade é (y todos os eixos interligados a ele) homicida, genocida, necrófilo-necrofago, canibal, esquizóide, virótico (imperialista), paranóico, homofóbico, cristão, pedófilo, machista, racista, xenófobo, perverso numa síntese gregária consolidada pela má-fé.

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