i
com o “declínio dos valores éticos y religiosos” [já não aparecendo mais como éticos, mas cruamente mercantis, jurídicos y estatais: não religiosos, mas cientificistas (ou científicos, o q dá no mesmo) com cobertura mística ou resistências ingênuas y impotentes], assim como a transformação dos “valores estéticos” em “valores industriais y comerciais” [por isso não-estéticos, mas consumíveis y expositivos: até a Arte desapareceu, por desvelamento y desdobramento, pra aparecer somente como “objeto artístico” (mesmo não querendo perder a posição de Arte): jamais voltará a ser o q disse ser, pensou ser, impôs ser: “objetos” do servosenhor: imaginários servosenhoriais]: antes de tudo valor-de-troca: todos os valores desvelados y superados pelo valor-de-troca: a ética, invenção de “sacerdotes” servindo servosenhores, se transformou em cruciante burocracia sem virtu, indivíduo sem comunidade, y as religiões, crenças entre crenças (o deus dinheiro de shakespeare y balzac como suporte y fim): ética y moral agora somente como o q sempre foram: adestramento das manadas, formatação pra obediência, códigos de manutenção.
com a reformulação radical da percepção, da cognição y do corpo [o corpo, q não era mais há muito tempo um “túmulo de lama”, não é mais domínio biológico, sendo esse somente uma das suas “formas históricas”]: não há mais “dois sexos”, cores estabelecidas por colonizações como estigmas do nascimento [desapareceram as raças, restando somente suas lutas políticas num vazio real, mas sobre suportes de sofrimento y discriminação q o sumiço das raças não extinguiu nem pode extinguir: não há o fundamento, ou melhor, o fundamento é imaginariamente doloroso, por isso real: y o real é racista, etnocêntrico, fundamentalista: o horror]: um só deus, um só corpo, um só olhar, um só desejo fluem entre mercadorias epiléticas q negam imobilidades por um lado y pregam, por outro, a unicidade imóvel: não há mais em cima ou em baixo (qualquer ponto ta em todos os lugares sem ta em lugar algum): a percepção se voltou pra sua “matrix”, a rede virtual produzida por seus fluxos: o real somos nós, nossa presença, nosso entrenós y seus fantasmas, suas dobras y torções, suas sombras y luzes, suas crenças, poderes y forças: não se percebe mais (percepção moderna) um existente pré-estabelecido, natural, universal, dado em-si, mas o existente enquanto produção viva das redes instáveis de produção/consumo, lócus virótico, relações de poder, ideologia, cotidiano, trabalho y desejo [delírios da tribo: delírios q são o real: o horror q não se “estabelece” mais: o horror moderno, o horror do capital não se estabelece mais em nada fixo, ou fixo por muito tempo, em lugar específico, nenhuma terra: o horror capitalista não se deixa capturar: enquanto o “horror medieval” era “estável”, “comunitário”, religioso, o horror do capital são processos constantes de volubilidade y dispersão: fluxos incessantes de horror líquido y vaporoso].
o belo [agora completamente produto y réplica platônica dum ideal industrial: o mundo das idéias deixando de ser em-cima pra ta por dentro do entrenós]: deixou de ser “belo” (sempre algo do servosenhor, feito pro servosenhor: coisa da casa do servosenhor) pra ser o mediano [o mediano, q desvelou o belo como algo sempre entregue a quem-pode, deixou de ta no meio pra preencher todos os vazios y esmagar todos os cheios]: y não há nada mais q o mediano (sem a mediania não há mundo, realidade, algo externo, sobra): q não é mais do-meio, do medíocre, mas do-todo: deixando furtivamente de ta associado ao bem [agora definitivamente o mal do servosenhor, a carnificina, o campo de concentração, o gulag: a política como administração reles de si mesma y proteção dos capitais: o judiciário, a polícia y o exército: a massa, o grotesco, o médio: a beligerância, o indiferente y o entorpecido: o bem desnudado, sendo visto como tendo sido sempre o bem-de-alguns, o bem-do-poder: nada nobre, tão somente coisas do servosenhor y as manadas em volta produzindo o existente como se fosse pra si mesmas, ficando com as aparas] y ao verdadeiro [agora indefinido, fanático, midiático ou científico: a verdade sendo verdadeira somente dentro do seu lócus (a verdade q não é consumível não é verdade), dentro daquele sistema q faz ela ser ao ser considerada y vivida como consumível: a verdade só é verdade com condições, sem contradições (mundo inda platônico: mundo do ser, da razão y das estabilidades, das cristalizações do imediato tomadas como instancias gerais, universais, parâmetros de realidade), o palatável, o tátil, o audível, o útil, o agora: a liberdade deixou de se apresentar como livre porq encontra seus limites objetivos imaginários: liberdade é ta provisoriamente nesse emprego provisório], assim como ao real [o mercado como único real (não é mais lugares ou transações, mas a própria virtualidade): o real enquanto o entrenós y suas crenças polidimensionais: todos os comércios]: sem horizonte de legitimidade qualquer verdade se torna imposição: aquele q diz ser sem posição ao acobertar sua posição: a verdade passou a ser o punho, o braço, os dedos retesados no anus aberto por garrafas de vinho: sexo escancarado, disponível, dentro somente do prazer da mercadoria, tudo de plástico, de gelatina, de luzes piscando até o esmagamento por bastões y pontapés ou nas velhices destroçadas nos edifícios imundos dos centos ou das periferias podres: não esquecer q o belo, o bem y o verdadeiro sempre foram ornatos do servosenhor, dos domínios do servosenhor [jamais “ideais nobres”, feitos por nobres, por uma aristocracia: essas balelas criadas pelos servos dos servosenhores pra enfeitar rapinagens, pra “enobrecer” os servosenhores]: feito, pensado, prescrito, ordenado, realizado pelos servos pros servosenhores: se o servosenhor se tornou a nação, o povo, a liberdade, a Língua, não esquecer q o servosenhor toma todas as formas, inclusive as positivas [nem o não-radical, nossa positividade, pode completamente escapar]: praticamente quase todos os filósofos y artistas, os q não enfrentaram o horror, compreendendo os cientistas como “operários” do capital, foram y são apenas produtores de “idéias” y “formas” pro servosenhor, pro deleite, pro gosto, pra defesa do servosenhor [são tipos específicos de servidores, de servos q podem se chamar de artistas, de pensadores, de professores, de intelectuais, de filósofos, de escritores, de mestres, de sacerdotes, mas são apenas as manifestações-capachos, seja das justificativas, da vida, dos poderes, dos gostos, das idéias ou das crenças pros servosenhores, materializadas de várias maneiras]: sem essa defesa-formatação não há o real: o real é essa defesa-formatação num processo repetitivo sem fim, circular y monstruoso: o horror.
o sublime, como aquilo q se eleva: q ta no alto: q é ilustre: nobre: distinto: q é “inexcedível perfeição material, moral ou intelectual”: aquilo q é “esteticamente belo”: o máximo: a perfeição: o q “se eleva no ar”: o sagrado q é “tremendum et fascinans” de rudolph otto y eliade, ou o “imensamente grande e imensamente intenso” de bakhtin, ou o medo y a surpresa de pascal diante da “eternidade que vem antes e depois”: o “sentimento de espécie mais refinada, assim qualificado quer porque se pode desfrutá-lo mais demoradamente sem saciedade y extenuação ... uma sensibilidade da alma” de kant: o sublime q sidera, esmaga, q apequena diante do monstro, do divino y do natural desaparece, se torna ridículo y tola hipostasia: esse mundo cristão, filosófico, o aristocrático do servosenhor foi, em dois séculos y centenas de guerras y genocídios depois (mais o holocausto como um dos grandes momentos reveladores), depois dos processos de massificação, consumismo y mídia, carbonizado, permanecendo somente como saudade de letrados cegos q nem de longe interpretam o papel de tirésias: com a dissolução irremediável de tudo q a “modernidade burguesa imperial” criou como universalidades naturalizadas, resta somente a luta sem trégua contra o horror [última resistência antes da possibilidade do sociodemonazifascismocristão invisível da ocidentalidade se tornar plenamente cotidiano y normalidade [a essência viva da ocidentalidade é normótica (purgando, dessa noção, as dimensões religiosas, místicas, científicas, filosóficas de manadas humanitárias y psicologias ginasianas de pierre weil), isto é, “o conjunto de normas, conceitos, valores, estereótipos, hábitos de pensar ou de agir aprovados por um consenso ou pela maioria de uma determinada população”, os costumes y tradições, levam necessariamente a sofrimentos, a discriminações, a enfermidades y a mortes, sendo, sempre, todas, “patogênicas” ou letais, y são executadas com a plena consciência dos “seus atores” (as manadas não precisam ser salvas, “educadas”, libertadas ou curadas de suas normoses por pedagogos, revolucionários, pastores, cristãos, socialistas, marxistas, democratas, anarquistas), mas a consciência dessa “natureza patológica” é reencaminhada pra própria normalidade, sendo defendida y vivida assim: historicamente todas as normalidades, são o “espírito da tribo”, a verdade, a realidade, o possível, o esperado, o prazeroso, o desejável, as crenças: a normose, todas as normoses, não é algo “patogênico” no sentido de doença estranha, circunstância, erro, exceção, mas a normalidade ocidental, a própria tribo, é patogênica [o ethos, o mos, ocidental é um pathos, é patológico, é patético, é doente y adoecedor], não por comparação com alguma outra “tribo” [q não existe, mas somente “extraterrestres” q chamamos indevidamente, por “comparatividade monetária”, por imperialismos, cristãmente, de “outros homens”, humanidade, humano, tribos], mas pela periculosidade “histórica”, existencial, incessante, intrínseca, constitutiva do seu pulsar cotidiano, das suas redes de crença, dos seus imaginários, das suas Línguas: ela não é, como quer o padreco weil, “inconsciente”, mas exige busca de prazer, “consenso”, “consciência”, “cumplicidades”, “resistências”, conforto, segurança, proveito, não reflexão (o medo cuida pra q ninguém saia do caminho, enquanto o prazer morno da proximidade da manada aumenta a segurança, a sensação de ta com os semelhantes num burburinho de placebo), y é letal sem ser exceção: se afastar das normoses é perigoso: seus devires são o horror: a normose é o horror]: positividades contra negatividades, contra as positividades impostas, querida y nos fluxos dominantes: tudo q tava em cima continua em cima, o q tava em baixo continua em baixo y tudo no ventre do monstro: o sublime se transferiu pro “empíreo”, pro “delírio”, pro silêncio ou pra atividade singular y alheia mirando estarrecida outro tempo: o sublime perdeu sua condição, seu solo tradicional, religioso, especial: sendo reconhecido como somente mais uma experiência daquele q se esconde ou daquilo q não consegue [talvez chegar ao horror, à diferença, ao radicalmente outro, a singularidade, ao único]: o sublime [expressão das artes y sentimentos dalgumas classes q se proclamavam universais] gorou irreversivelmente: agora é somente mais uma mercadoria ou experiência de consumo.
com a palavra deixando de significar enquanto experiência y revolta [uma mercadoria a mais: significante monstruoso: pairando sem significado: sem força: com a força do consumo]: enquanto parte constitutiva do entrenós, uma das suas matérias constitutivas: a incomunicabilidade se tornando o q antes só podia ser espaço do diálogo y do comercio vivo entre os indivíduos de determinadas classes [a falsidade se escondendo em forma de “conversa”: o “diálogo” sempre só foi possível entre os “iguais” (de mesmo poder) q podem ou na dormência dos q não podem: as intrincadas “conversas do dia-a-dia” não passam de “sinais de reconhecimento”, o equivalente ao “bicar entre as galinhas” y o “cheirar o rabo um dos outros” entre os cães]: podia ser o fluxo de conhecimentos y vivências (q se situava numa corrente específica de poder q restabelecia as tradições): agora é mais um dos pontos de ativação mercantil, de ativação dos “trabalhadores”, das crenças gerais y da acomodação paralisante: a palavra é cúmplice (não se tornou: “sempre” foi) quando faz sua parte da matéria viva do existente enquanto tempo: a palavra torna patente, com seu mutismo, q sua forma de existência é aceitação y tradução, engano y submissão, crença y silêncio, imposição y poder: o sentido é o momento da cumplicidade, da aceitação, o sentido chama a ordem, o encadeamento, o compartilhado passivamente [o mesmo, o de sempre, o esperado, o necessário, o preciso, o impreciso], as camuflagens da tribo gelatinosa, os acordos grupais, os gestos comuns do costume, o respeito imobilizante, quando o diálogo cessa y aquilo q o outro disse permanece: o sentido é subordinação y obediência: o servosenhor adormece y acorda, vive y descansa, cuida y se descuida dentro da inanição da palavra: casulo do servosenhor: mas não há um antes onde a palavra foi “forte”, foi instável y furiosa: sua forma de existência “sempre foi” apassivadora, comercial, contratual: não há uma “volta” q redima a palavra: sua tradicção é religiosa, coisa dos servos dos servosenhores: coisa de comerciantes.
os indivíduos só aparecendo como travestis do povo, da massa, da manada, do cardume, do vespeiro, do cupinzeiro, da gelatina [na literatura desaparece, ou se pulveriza, o personagem, q não pode mais ser a “antiga” máscara, a “antiga” personalidade, o “antigo” trajeto do herói, a antiga voz narrativa (q na Literatura brasileira é a máscara caricata do autor, q não consegue criar outra voz senão a dele mesmo ou as “máscaras jornalísticas” ou “familiares”): personagem legítimo agora somente na “Literatura de massas” como pastiche impotente, performático y típico, nas “Literaturas populares” como “sobrevivência” tanto por ignorância como por resistência passiva y festeira, ou na Literatura, como exercício tradicional (jornalístico, historiográfico, sociológico) da hegemonia: como fonte é manter o antigo, o tradicional, o integrado]: o indivíduo como clonização q não se sabe clone: o igual q propaga q é diferente: a busca pela possibilidade dos indivíduos, singularizados, se vincularem numa busca da liberdade sem esperar por ela na utopia do depois duma revolução, normalmente depois de purificações em campos de concentração, gulags, expurgos y cotidianos de medo y terror, cotidianos de trabalho incerto, de exclusão, de shopincenteres y mídias [o campo de concentração agora é o entorpecimento generalizado necessário pro sistema inteiro funcionar]: como fazer essa vivência da liberdade aqui y agora, fora dum futuro idealizado y fora de controle, se ordenar na literatura como rearticulação daquilo q aniquila a singularidade y uma das suas formas gerativas, o indivíduo: a busca pela positividade radical (aquela q nega o existente), pelo prazer sem controle, pelo prazer de negar o existente repositivando quer seja do indivíduo ou de grupos q voluntariamente se escolhem fora das “hierarquias de opressão y poder”, é uma possibilidade da liberdade fora do olho midiático, do outro monstruoso, do cardume: mas tudo no horror é compulsório y regular [regulamentado: a lógica do consumismo não é “líquida” nem “gasosa”: ela só parece ser, mas não é], é naturalizado y universalizado, é satisfatório y passageiro, é feito em massa y com permissão [um se abismar: um cair de propósito no turbilhão do abismo: sem a desculpa de “inconscientes”, de “desconhecimento”]: a literatura é um dos vírus soltos nas redes ou não é nada: não há literatura sem singularidades livres: sem q a individualidade se torne o “único”, a singularidade libertina, a literatura perde seu corpo.
com a intimidade coisa de todos: orgia midiática entre aqueles q nunca se viram, jamais se verão y não querem se ver [nem devem se ver: só há grande liberdade na “masturbação”: a festa, o encontro, a naite, a música, a bebida, o repiauer, a reive, a conversa repetitiva y de apoio ao conhecido (o “cheirar o rabo um dos outros”) são entidades do vespeiro de “classe média” (a normose enquanto falso dionisíaco) em ânsia de reproduções y repetições jamais plenamente satisfeitas]: o íntimo se impondo, ilogicamente, como exterioridade descarnada y escondida: entrecruzamento de imagens q perderam seu corpo y de corpos [corpo agora apenas performance biológica, corpo-sexo pra exposição, corpo-fisiologia pro mercado, corpo y alma cristãs pro sofrimento divididos entre as igrejas y os lugares da carne] q dissolveram sua imagem [sexo trabalhador, sexo classe média, sexo clone das mídias, sexo q se exaure no macho y fêmea, na bicha y no travesti, na lésbica y no transexual, nos minúsculos rituais cristalizados, na falta de repositivação y negação, de mutações conjuntas: sexo reprodutivo: sexo culpado: sexo protelado: sexo ansioso: sexo-vida calados]: bestialidade, pedofilia, fisting, coprofilia, sexo maquínico, sexo reprodutivo, sexo expositivo, sexo cansado y cansativo: sexo trabalhoso, sexo do trabalho, pro trabalho: esperança de sexo, menos q “amor” [a esperança “religiosa” da reprodução como uma das arestas mais bestiais do horror: horror q se apresenta como “amor”, como se pudesse haver amor fora da libertinagem: amor como crença de sintomas q escondem a reprodução, o desejo permitido, o pouquinho no horizonte da carninha]: esperança de roçar, de ver, de ser correspondido, de ser visto, de dizer quem é mesmo não sendo nada: sexo imposto [imposto de renda, conta bancária, emprego]: sexo dos padres, dos patrões, sexo da produção, subsexo das mídias, sexo sádico torcendo o prazer até a dor y a dor até o prazer q não se sabe mais, até a destruição do outro y de si mesmo [lócus de angústia]: olho supremo fora de si: longe: guardado: protegido: íntimo descobrindo, horrorizado, q sempre foi entrenós: vítima da própria cumplicidade assassina: incapaz de construir uma deformação, um descaminho, uma resistência radical ao em-torno: q não estacione numa simples negatividade ou numa forma q rapidamente seria capturada: corpo marcado pela manada pra se tornar apenas um tipo de “corpo” (produtivo, reprodutivo, midiático: a “casa própria”, o emprego, o carro, as férias, o fim de semana, o restaurante, o cinema, o shopingcenter, a televisão: o patético paraíso da normose).
com a igualdade y a liberdade [a igualdade entre os q compram y a liberdade de consumir sem parar são os fundamentos desses dois conceitos: poder fazer contratos, pactos y compras] revelando, antes de tudo, a vontade y o exercício do poder em suas “formas capilares de controle”, o imperium de certas individualidade camufla a comunidade em seu horror, todos os mimetismos tribais q apenas pros mesmos fazem ele aparecer. nessa “modernidade líquida” (como vê balman: como se houvesse alguma “modernidade sólida”), cada vez mais, os relacionamentos devem ser por livre escolha: mas não há mundo onde a liberdade y a igualdade substituam os poderes y se imponham nas próprias relações: a liberdade, a livre escolha (invenções dos servos dos servosenhores), se torna dramaticamente teatro da crueldade eroticamente violento y massacrado [a carne se abre, se eriça pra se reproduzir, pra produzir novos consumidores q serão cevados até a “gordura mórbida” pro abate primoroso numa repetibilidade estranha da “máquina fordista”]: a “liberdade” se ajoelha “diante do poder” y se humilha pra gozar, fazendo sempre seu normótico jogo quase erótico: tamos num momento da tribo inaugurado por sub don juans, sub sades, sansa (q já era sub) y ford (q era super-foda): fora dessa liberdade prostrada diante do poder y da repetibilidade tola y perversa, nada mais pode ser pensado [mas nada jamais pode ser pensado como “superação” porq toda “superação” faz parte da tribo, suas necessidades y possibilidades de perspectivas].
com o desaparecimento da Arte, sendo substituída ou superada por sua real forma de existência (objeto cultural): forma pra exposição y venda (sem a cumplicidade y sem a aura religiosa, aristocrática y burguesa tradicionais: arte sempre foi artesanato pro servosenhor y explicação pros babadores dos servos y manadas admirados): estrutura similar ao “objeto mercantil” [q perdeu seu momento religioso ficando somente como matéria artesã: matéria prima de artesãos de várias “classes” cada um trazendo a carne pra seu prato o quanto antes], terminou fazendo as vezes de “expressão da sensibilidade” [individualidade produtora de objetos pra específico mercado proclamando q é “pela Arte”, “pelo povo”, “pelo país”, “pela história”, “pela beleza”, “pelas idéias”: materiais, gêneros, performances, interfaces, tecnologias, repetições: aquilo q precisa dizer o q é, o q significa, “ao q veio”, o q representa, escondendo seu teatro: a lógica da identidade, a solidão do objeto nu, o pertencimento ao sistema dos “objetos industriais”: sua loucura y desespero por ter perdido o “patrão”, ou a busca desesperada por um patrão a todo custo: o dinheiro é o patrão, o servosenhor, a matriz necessária, inescapável]: seus sentidos tão fora, no sempre em fluxo do capital: significante despolitizado y policiado num circuito oficial y venal, ao mesmo tempo capaz de desvendar sua forma de existência anterior [q era praticamente a mesma coisa, mas com os véus da sacralidade: a Arte desde a primeira metade do século xx perdeu toda a sua especialidade, unicidade y força de dizer mais do q ela mesma enquanto “coisa-mercadoria”: sua forma de existência é a de “representação”: teatro do silêncio y do ridículo]: a Arte não consegue, nem jamais conseguiu, “enfrentar o horror” [a não ser fazendo parte “sem saber”: da igreja, do mecenas, do empresário, do estado, do mercado: sujeito integrado y objeto produzido também integrado]: seu horizonte é o das coisas [ritualizar as coisas, reapresentar as coisas, pôr as coisas no devido lugar, de produção, repor tudo no seu lugar devido parecendo ser revolução, revelação: não consegue esconder seus “interesses de classe” (blocos de gelatina, momentos de jorro), seu lócus viciado, sua parcialidade fragmentada por conivências]: como as coisas perderam seus véus, restou pra Arte ser somente coisa, mercadoria y estratégias específicas de convencimento de consumo (a defesa da Arte é, na verdade, estranha forma de venda, circulação y consumo: defesa de posição, de produção, de consumo: a tristíssima defesa do mesmo, novamente).
com o fim das utopias, transformadas objetivamente em todas as formas de genocídios, campos de concentração, totalitarismos, autoritarismos, perseguições y complementos imaginários, ideológicos, militares y burocráticos do capital, isto é, sem o futuro como meta, havendo se perdido o passado ao se descobrir q a história é uma escrita da História, um conhecimento integrado y integrador, uma experiência praticamente inútil pro presente, agora somente imediato mercantil y midiático com uma política voltada somente pra administrar y proteger o mundo do capital, um processo monstruoso de despolitização tomou conta de tudo [as “esquerdas” se tornaram, ou sempre foram, formas ridículas das “direitas”, agora “fósseis” substitutos da masturbação pras senilidades y adolescência de “classe média” impotente y sem horizontes]: o tempo ta reduzido a um simples agora do cotidiano, enquanto toda as suas dimensões y espessuras mergulham pruma espécie de inconsciente atuante mas impotente prum além das práticas y teorias naturalizadas, universalizadas y historicizadas (o devir mais vasto, o movimento, as contradições, as mutações modernas reduzidas ao mutacionar cru y livre das mercadorias): com o desaparecimento da mercantil “idéia de revolução” (substituída pelas noções de evolução-progresso ou por mudança-modificação), a política se tornou especialmente manifestação de apaziguamento [os políticos como tênias do estado, q é descomunal parasita imaginário da “comunidade” sugando objetivamente as bordas exaustas dos “frutos do trabalho” em “nome de todos”], y a idéia de revolução migrou inteiramente pra “renovação revolucionária” de mercadorias y serviços, de onde se originou [não a revolução dos astros, mas a revolução das mercadorias é o fundamento y o estranho convencimento da “idéia de revolução”].
ii
com tudo isso, y por tudo isso, y sem saudosismo [o “mundo do valor”, mundo religioso, servosenhorial y burguês, mundos do servosenhor, impondo sua natureza, sua universalidade, sua religião, sua história, era tão monstruoso quanto o desse momento: o “mundo do valor” sempre foi mundo pra poucos (não “escolhidos” ou “nobres”, mas somente força de impor sentido y cumplicidade dos fracos em aceitar essa força), aproveitadores y saudosos], mas como “análise” pro enfrentamento, a literatura deve deixar de atuar como sempre atuou a Literatura [suas velhas funções caducaram y persistem somente através duma oligarquia das letras, um cânone, uma hegemonia, um estado, um mercado y uma rede imaginária de “cúmplices” querendo exercer a nova vaidade permitida y exigida pela mídia, q era pecado cristão y agora virtude pra todos: a fama, o império do idiota], isto é, como representação da hegemonia (o horror): sua força reside em ser similar à virtualidade, às redes imaginárias q são o real enquanto criação, reprodução y circulação: escapa da individualização imóvel da Arte, do objeto y da função alienante do reprodutor de mercadorias como se fossem “coisas únicas”: quem faz a Arte é o indivíduo, quem cria a arte é a singularidade libertina y inversora.
iii
os “valores” destroçados, pulverizados pelo capital não podem servir de base pra literatura [uma “pré-modernidade”, uma “feudalidade”, uma “cristandade” ou uma “antiguidade”] a não ser como carne moída:
muito menos os “valores” do capital [a modernidade]:
assim como os “valores utópicos” gerados pelos dois primeiros.
a literatura enquanto libertinagem é a perda desses referenciais (tradição [passado], mercado [presente] y política [futuro]) impondo suas formas, sua expressividade, sua força y consciência na articulação negativa contra o existente: sem “valores” passados, presentes y futuros: “enfrentar o horror”.
a impotência do “trabalhador”: seu respeito cúmplice [sempre foi povo, massa, manada, servo dos servosenhores]: a incapacidade dos poderes y dos saberes em convencer y satisfazer [atributos da mercadoria] simbólica y materialmente [q é o mesmo q ta fora do mercado y do presente] suas vidas, q é a de praticamente todo mundo, é o presente horizonte, as possibilidades de forma, de ritmo, de articulação da literatura: a literatura é pôr em forma, enquanto enfrentamento repositivador, esse horror. mas essa forma não pode perder sua condição de enfrentamento em busca da positividade contra a consciência negativa do horror (ao tornar patente, ao transformar o disperso em alegoria grotesca, forma-narrativa), não da solução, q pertence às ilusões seja do passado [tradição-ideologia], seja do presente [mercado-ideologia], seja do futuro [utopia-ideologia]: é do horizonte de impotência, incomunicabilidade, ansiedade, medo, abandono, insegurança, misérias, desigualdades, exclusões, solidão, silenciamentos, normalidade, banalidade, cotidianidade y violência q se geram as formas provisórias, sempre em fluxo da literatura (forma épico-menipéia: a literatura como infestação dionisíaca): pura positividade terrorista ou resistente com causa, mas sem utopia: formas contra as formas do horror: nasce dele contra ele: não são formas negativas, mas positivas.
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