sábado, 31 de janeiro de 2009

o horror



i

*. o horror é a vida descarnada, a vida apenas em sua crua “negatividade” [a negatividade q passou pela moral, pelas culpas cristãs, pelas metafísicas], a vida moralizada, a vida tornada religiosa, periculosa, amarga, vida culpada q precisa ser redimida, a vida dos ressentidos [dos servosenhores impanturados de ócio improdutivo (a mentira ridícula dos nobres, das aristocracias), dos servos e trabalhadores impanturados de trabalho, dos servos dos servosenhores impanturados de “objetos” y “serviços” pro bem de todos, pro bem do estado, pro bem de deus, da alma, pro bem antes de tudo dos servosenhores], a vida dos reprodutores, dos campos do trabalho y do consumismo, vida das metafísicas y das ciências, das políticas, das manadas.
*. o horror é a ocidentalidade, o sumo das religiões, das metafísicas, das ideologias, das ciências, das cumplicidades, da “barbárie” tornada tribo, realidade: a normose.
*. o horror é “criminoso”, enquanto a vida é “inocente” (não precisa de justificativa, de justificação, de autoria, de assinatura): o horror é cristão, burguês, feudal (sociodemonazifascistacristão) - a vida ocidental foi construída culpada, culpando, foi sendo inventada como algo esmagado y esmagador: tornada pecadora, prostituta, injusta, desonesta, apenas o mal: precisando de um ridículo mito crucificado, pessimo personagem de dramalhão (e de uma instituição venal), pra assumir a culpa y ao mesmo tempo redimir essa culpa, tornando a vida limpa: injustiça q precisava ser punida numa acão divina (ou filosófica, ou científica: acões correlatas): sofre porq é culpado, y sofrendo expia as culpas y se redime: a vida cristã: o horror é a vida cristã, burguesa, capitalista: a busca por culpados, pelo mal, pelo sofrimento, pelas injustiças: metafísicas, o horror: só esmagando a vida se repete como criação do imediato: o tempo é só o tempo da tribo, o horror da tribo.
*. não há um “tempo modelo” antes (o tempo de ouro), sem o horror q se tome como exemplo, como origem: nem uma utopia, a sociedade-paraíso, q se lute pra se realizar, se unindo aquela origem com esse fim.
*. o horror é a vida vergada até se tornar um chicote.

ii

*. a literatura não é “contar uma história”, mas específica maneira de enfrentar não somente os horrores do passado [enquanto novelos temporais q se desdobram nas formas de experiência, crenças gerais, linguagens, práticas sociais y interindividuais, classificações, hierarquias, valores, desejos, im-posições, nas malhas do imaginário em fluxos de atualização, no jorro do imediato: literatura é enfrentar historicidades], mas nossos específicos horrores, expondo mais do q sua visível monstruosidade: daí porq o grotesco sem o alegórico (y vice-versa) é somente Literatura [sociologia jornalística ou jornalismo historiográfico: dimensões da mídia: não mais um contar “os excluídos” (mercado-ideologia: cumplicidades): ou as “vozes da elite” (tradição-ideologia ou produção-mídia): muito menos as “vozes da revolta” (utopia-ideologia por não ta no mercado, por se ressentir da sua “posição social”: os sonhos periculosos das manadas equivalentes a periculosidade dos servos dos servosenhores y dos próprios servosenhores: somente manutenções, conservações, reproduções, defesas, proteções do mesmo: formas do horror): tudo é mercado, tudo é mídia, tudo é mercadoria, tudo é cardume: da vida somente o horror: sem esse horror não há a tribo], y o alegórico sem o grotesco é somente “literatura fantástica” [teatro de sombras feito pro riso frouxo ou sonhos realistas da mídia]: o grotesco sem a alegoria é somente a aparência transformada em espetáculo único y principal [qualquer “gênero” da moda: alegoria impotente como algo “em sentido figurado”, ou aquilo q “representa uma coisa pra dar idéia de outra”: fantasmas de papel: a alegoria transformada em imagem, simulacro, mediador impotente].
*. “nosso” horror, além de carregar os grandes horrores do “passado” [mais-valias, explorações, tráficos, monopólios, abusos, violências, pressões, repressões, coações, entorpecimentos, constrangimentos, miséria, influências, sujeições, vassalagens, rendições, cooptações, desproteções, pobreza, selvagerias, torturas, agressões, violações, opressão, proibições, ressentimentos, humilhações, aviltamentos, racismos, homofobias, angústias, desesperos, machismos, solidões, servilismos, cumplicidades, normoses], agora com novas y atualizadas feições, tem q dar conta das teias imaginárias próprias do nosso horror pessoal y grupal [nada universal, generalizado, mundial, mas dessa tribo específica, “ocidental”, cristã, burguesa, capitalista: os infestados, devorados, canibalizados, incorporados pela “ocidentalidade” entram em “outra existência”], aquele horror q além de ta próximo, ta aos pedaços, aos quadradinhos, aos fragmentos, aos fluxos, aos pontos numa múltipla rede espácio-temporal enquanto “comunidade”, enquanto indivíduos despedaçados antes de conquistarem a singularidade [individualidade clónica, numérica, nominal, monstruosa y pervertida: bobo da corte, consumidor, modelo]: o horror se espalhou inda mais q o antigo horror (eixos “normais” y “naturais” da ocidentalidade: aquilo q reúne y difunde sua identidade): hoje é mais fácil ver ele somente enquanto mídia, aparições do mercado, permitidas pelo mercado, mas nunca articulado em seu horror vivencial: o horror é o q se esconde, o encapuzado, o disperso, o invisível de toda realidade: seu exercício monstruoso é a mais plena realização da “ocidentalidade”: não há o horror y a “ocidentalidade”: o horror é a ocidentalidade: sua “maneira de ser”, o resultado milenar de evisceração, arrancando da vida apenas o destrutivo, forças cruas em gélida repetição y autosatisfação, o poder de gerar cada vez mais o horror enquanto produtividade, o real enquanto horror.
*. o gozo do libertino é o mesmo da mítica parteira: trazer a luz, mas luz q é feixe negro de contradições [luz negra q afasta, q não aproxima, q não ilumina, q recusa a luz: faz aparecer novas formas, novos contornos y profundidades: busca a luz q multiplica, q cria claro-escuros, esfumatos, profundidades, longe da luz esfuziante da razão], o horror em seu momento [mas esses momentos do horror transformados em literatura dependem do seu lócus articulador: o libertino y seus feixes não podem ser excluídos: o libertino não é “escritor”, “filósofo” nem “cientista”, não carrega essas ingenuidades ideo-lógicas: seu lócus é o q articula fragmentos do horror: q fazem parte da sua responsabilidade, liberdade y experiências pessoais: literatura é vida forte, vida plena criando resistências contra o horror, repondo o horror nas cruas dimensões da vida] com o horror ou os horrores: a “verdade” ou a “realidade” não entram em seu universo: a literatura é inútil y perigosa pra “cidade”, pra “república”, pro “bem da humanidade”, pra Língua [a literatura, a linguaingua, é o exato oposto corporal da Língua: o gesto semântico instaurado entre macedo y marçal (a Literatura brasileira, o lócus de inspeção) é outro, é diferente, da afirmação negativa, hermenêutica q enfrenta o horror da literatura y não é mais produzida pelo escritor, pelo escritor-literato, pelo escritor-jornalista, pelo escritor-historiador, pelo escritor-cronista, mas pelo libertino]: esse é seu olhar, seu ponto, sua radical unicidade, resultando em individualidades do horror: é essa individualidade quem “unifica” o desarticulado-pra-ele, não a “verdade”: nessa articulação o libertino encontra o q sentia y inda não sabia completamente: a escrita reúne o disperso y se transforma numa experiência pessoal superada: numa consciência maior sobre o horror [essência da ocidentalidade, de cada um dessa tribo y essência de toda linguagem, de toda comunicação, de toda crença y idéia] y sua vida enquanto horror no horror. seu papel é ampliar feridas, fendas, infestações, aceitar y expor os monstros desses partos, evocando y provocando, reunindo y espalhando. em vez de acalmar as dores (seu papel não é o de fazer cesarianas), fazer ver a própria dor, as muitas dores q a ilusão, q o nada constitutivo produz, q o falso viver pelo falso viver esconde (o viver das elites, do povo, das massas, dos cardumes, dos consumidores, de todos os tipos de crentes): o sofrimento q articula o viver y q desaparece como justificativa. o libertino faz, com a literatura, o parto da descoberta de si mesmo como singularidade forte, apartada y da ocidentalidade em seu horror: interroga o horror em sua forma dispersa, pulverizada, triturada em múltiplas camadas y dimensões [sempre em movimento, sempre mudando de lugar: a literatura dá um lócus presse predador insaciável y território onde ele pode se desenvolver, se expor y se soltar: se multiplicar visivelmente: ele pode ser per-seguido], em transversais inumeráveis y imperceptíveis: a literatura torna visível, abstrai y fixa pontos, articulações, torções, planos soltos do horror, de modo a agrupar sob uma mesma forma/movimento uma multidão dispersa de vivências, experiências, inquietações: a literatura é o lugar, a jaula, onde foram y são aprisionados hologramas fragmentários do horror: como veio da dispersão não é representação, não ta no lugar de nada, não é signo, não é diretamente vivenciável (pré-sentido como unidade, visibilidade), mas enjaulamento de atmos-feras: violências.
*. o horror ta sempre trabalhando.
*. a literatura não liberta do horror, não libera em “descargas catárticas” [é preciso deixar de ta leitor: nada mais imbecil q um leitor: esse ser q se diverte lendo, q “faz o tempo passar”: essa criatura q “vive aventuras” y q “viaja ao redor do mundo” sentado ou deitado com seu livro: esse predador ocioso, glutão de dados, de inutilidades, de emoções: ser infantil y faminto, alheio y abismado: isso q não luta contra o horror, não usa os livros como instrumentos positivos, terroristas, pralguma resistência ou guerrilha aberta: cidadão integrado, letrado da oligarquia das letras, masturbador covarde q sonha seduções impossíveis: animal inofensivo da manada]: não supera no espelho como a Literatura, o teatro, o cinema, a Arte y as mídias: atravessando depois dela y com ela o horror seremos, enfim, nós mesmos y o horror será, finalmente, ele mesmo pra nós [literatura é algo íntimo q só a depravação faz tornar pública]: nenhum dos dois se esconderá mais: os dois terão seus corpos, seus órgãos, suas práticas, seus rituais, suas crenças ex-postas minuciosamente por seus fantasmas [esses mesmos q não cessam de nos mastigar, devorar, engolir, assimilar y expelir].

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