há uma pergunta recorrente q é usada praticamente em todas as situações: “?donde você é” esse “é” diria, ao ser aceito y respondido, posto em lugar y tempo, quem é o sujeito, o q pensa, o q faz, porq y como pensa y faz, porq fala assim dessa maneira, y age y sonha y escreve y planeja y trabalha y se relaciona assim se é idêntico, parente, estranho, próximo, distante. não é pergunta, mas enquadramento, reconhecimento, fundação, jaula: respondido, é como se o outro se dispusesse, se desnudasse. respondido o “é”, podemos compreender plenamente esse sujeito, esse q se apresenta, isso q fala. esse “é” é pergunta divina: com ele o sujeito, ou a coisa, se torna transparente, dado, acabado, localizado: não deixa dúvida, não há margem, não há perigo ou se sabe qual perigo.
esse “é” é mágico porq é o zoológico perfeito (ele põe no setor correto, na jaula certa, na placa definidora, na alimentação requerida, com os companheiros corretos, com os comportamentos de praxe, com os inapeláveis grunidos da sua espécie): esse zoológico é panóptico q permite q todos vejam quem você é, como você é, como deve se comportar, como deve desejar: esse lócus me diz mais do qeu mesmo: me torno esse lócus:
a taxonomia ideal [na legítima espécie, no verdadeiro gênero, na requerida ordem, na inescapável família, no correto reino q me cabe “junto aos meus”: sem mutações, sem vazios, sem indecisões, sem não-enquadramento, sem não-aceitações, sem revoluções radicais, sem não, sem resistências]: só posso ser isso: aquilo q nega em mim tudo isso não pode se desvelar: não faz parte, não ressoa, não é explicável: essa mutação raivosa y negativa q sou (se camufla dos outros só pra resistir, lutar, dissolver melhor), não-é, não pode refletir, não pode ser: é deixado ser somente o esperado da ordem: sou essa ordem mesmo q seja precisamente contra essa ordem q é o meu agora: só posso ser contra essa ordem q imponho: não posso não-ser sendo contra tudo: minha negatividade é porta também y somente como contra-ordem:
o senso absoluto [aqui me ponho, aqui me imponho, aqui ta minha diferença y a razão da minha diferença]: fora daqui não há diálogo, não há referencias, não há favor, não há reconhecimento, não há linguagem ou diálogo: solidão é o mínimo:
na história verdadeira [isso me diz, esse processo me caracteriza, essa origem me satisfaz, essa tribo sou eu, esses irmãos me completam: somos iguais]: sem esses trajetos dum lugar q seria “meu” y “eu”, sem os iguais a “mim” nesses trajetos, não sou deixado ser: sou apenas nessa história, com essa história, com determinado lugar y gente [se digo q não sou igual isso não é levado em consideração, é como se fosse uma brincadeira]:
na geografia adequada [sou desse lugar y esse lugar com essa gente y seus costumes sou eu: fragmento disto: sou esse lugar mesmo longe dali: o lugar é marca, cicatriz, estigma: sou ferrado pelo lugar: o nascimento é a razão]: sem minha alcatéia, sem meu formigueiro, sem minha manada, sem meu cardume, sem meu território, me desloco sem significar: mas não nasci em nenhum lugar a não ser em mim mesmo quando escolhi negar, repositivar, inverter, perverter, não ser, não pertencer, não com-partilhar:
na raça esperada [esta cor sou eu, a história dessa cor sou eu, as relações dessa cor sou eu: fora desta cor sou estranho, um outro: essa cor me determina porq ela é natural ou, pelo menos, assim deve ser ou parecer: o q não é natural é desvio: o estranho é desvio]: devo ser “branco”, devo crer q sou “branco”, devo ver y escutar como “branco”, devo relevar o “branco” contra as outras cores: sou somente “branco”: é assim q me vêem sem se perguntarem porq vêem assim: é assim q sou y sou porq devo ser, porq acredito q sou y acreditam os outros q sou: fora dessa crença, nem sou nem posso ser: sou o q dizem q sou: “branco”: mesmo negando radicalmente, é impossível ser outra coisa ou coisa alguma, isto é, sem cor ou todas as cores:
no sexo visível [aquilo q visto, o tom da minha voz, pra onde y pra quem olho, quais histórias y piadas conto, como uso o gênero na linguagem, como exerço parte do meu desejo, com quem me relaciono é índice do meu sexo]: meu sexo é estabelecido por uma sistema de crenças, forças, poderes, imposições, classificações q fazem também meu corpo y minhas relações, jamais por feixe singular, multidimensional de desejos, de sonhos, de imaginações, de perspectivas, de vivências: fora do corpo esperado sou um desviado, anomalia, doença, disfunção, libertinagem, derrota:
na Língua apropriada [a maneira como falo ou escrevo diz meu lugar: me põe numa classe, num estamento, numa casta, numa região, numa família, numa favela, numa estribaria, numa universidade, entre miseráveis ou entre ricos, entre sábios ou ignorantes, entre migrantes ou cidadãos, entre os q podem ou entre os q não podem, entre os q são y os q não são]: essa Língua dos outros não é minha: minha linguaingua é a q significa pra mim, é íntima, é pessoal, é desvio, são transversais: essa linguaingua q sou não é a mesma Língua ou a mesma linguaingua dos outros: cada palavra, cada inflexão, cada frase, cada idéia dessa minha linguaingua me pertence, jamais a uma Gramática, a um Povo, a uma História: essa linguaingua q sou foi construída por mim, veio do corpo, desses corpos q fui y sou em seus trajetos im-positivos: os outros compreendem ela y compreendo as outras Línguas y outras linguainguas por comparação, por extrapolação, por cansaço, por tradução, por engano, por escravidão: minha linguaingua não é de ninguém nem de nenhum lugar: não é uma “variante”, um “sotaque”, uma brincadeira lingüística.
?q é o corpo, os outros, a História, a Geografia, a Gramática, a Política, a Biologia, a Sociologia, a Economia, o Direito, a Ciência, a Religião, a Mídia senão formas de sub-meter [meter muito mal: só os idiotas apreciam]. de não deixar subverter, inverter, multiplicar, mutacionar, repositivar violentamente: ?q é a explicação senão enclausuramento y negação da vida y da singularidade, em guerrilha.
se não sou branco: se não sou homem: se não sou brasileiro: se não falo y escrevo em português: se não sou duma região, duma cidade, dum emprego, dum contrato: ?quem sou eu. mas só sou quando não sou nada disso y radicalmente me ponho contra mim mesmo, contra o mundo, em resistência: y tudo isso como um vírus dentro dum imenso corpo podre.
welcome to the real world.
ResponderExcluirMorpheus to Neo.